As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Qual o objetivo do futebol?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h19

O objetivo final do futebol é dar retorno financeiro ao clube. As palavras são do dirigente Mário Gobbi, do Corinthians. Para mim, esta é a frase da semana, talvez do ano. Se ele fosse um cirurgião, diria que o objetivo final da medicina é dar retorno financeiro ao hospital. Se fosse um professor, diria que o objetivo final da educação é dar retorno financeiro à escola. E assim por diante. O que me encanta na frase é a sua sinceridade brutal. Sua ausência de qualquer pudor ou prurido, seu conformismo absoluto.

Pensei nela ao assistir a Corinthians x Palmeiras, o clássico dos clássicos da cidade de São Paulo, disputado em Presidente Prudente, distante 560 quilômetros da capital. Sei que o mandante deve ter obtido vantagens financeiras para jogar no interior, inclinando-se ao objetivo final do futebol. Mas, afinal, é o derby da cidade de São Paulo e talvez fosse interessante respeitar essa tradição. Mesmo porque o mundo, pelo que dá mostras, não vai acabar amanhã e então seria preciso pensar no futuro mais distante e não apenas no imediato. Para ser claro: pensar num horizonte de dez, 20 anos, e não apenas na semana que vem ou no fim do mês.

Respeitar tradição não é coisa de gente velha. Significa, já que a linguagem é essa, preservar o retorno de amanhã. Cultivar a rivalidade de um clássico para que o interesse pelo jogo se transmita às gerações seguintes. Um Corinthians x Palmeiras em Presidente Prudente parece tão bizarro quanto um Internazionale x Milan em, digamos, Nápoles, que é uma linda cidade, mas nada tem a ver com o derby de Milão. Ou um Sport x Náutico em Caruaru. Não tem sentido. Nada disso faz sentido, por mais que, conforme acreditam os dirigentes, seja aprovado com louvor pela lógica econômica.

Claro que não nasci ontem e nem sou romântico a ponto de achar que as coisas funcionem apenas na base do sentimento ou do amor. Sei muito bem que hospitais precisam comprar equipamentos cada vez mais caros e pagar os salários dos médicos e da enfermagem. Sei que as escolas não vivem apenas de cuspe e giz, mas enfrentam os custos dos laboratórios e, pelo menos em tese, deveriam pagar para manter os melhores professores. Da mesma forma, sei muito bem que o futebol está inflacionado, com os custos cada vez maiores e, portanto, precisa de receita para funcionar. Até aí tudo bem. O futebol virou mesmo uma ilha da fantasia.

Só não concordo é com a inversão entre meios e fins. Parceiros deveriam ajudar os times e não parece que a melhor ideia para isso seja transformá-los em barrigas de aluguel. Trazem o jogador e, se ele vai bem, o revendem em seguida, como foi o caso de Keirrison, entre tantos outros. Se os clubes pretendem explorar o espetáculo, até para vendê-lo mais caro, deveriam se preocupar em melhorá-lo. Não é se desfazendo dos bons e ficando com os medíocres que isso vai acontecer. Se os cartolas querem mesmo garantir receita, deveriam prestigiar quem paga a conta, ou seja, o torcedor. Afinal é ele quem vai ao campo, compra camisa, vê TV e assina pay-per-view. Um dia ele pode se cansar.

Não sei em que tudo isso vai dar, e não estou falando apenas do nosso jogo. Mas, ao contrário do dirigente corintiano, entendo que o objetivo final do futebol seja o próprio futebol: trazer títulos, bons jogos, ídolos e emoção à torcida. O resto, para mim, é conversa. Mas devo estar enganado, não é?

(Boleiros, 28/7/09)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: