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Quando a paixão é fundamental

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h47

A melhor solução para a falta de criatividade brasileira não entra em campo,
mas mesmo assim Parreira não tem desculpa para voltar atrás e escalar o time
sonolento dos dois primeiros jogos. Com Robinho fora de combate, ele bem que
pode avançar Ronaldinho Gaúcho e colocar Juninho, sem falar no Gilberto
Silva, que marca melhor que o Emerson e ainda sabe sair jogando. Deixemos de
lado os laterais, porque a impressão geral é que ele entra mesmo com Cafu e
Roberto Carlos, deixando alguma possível modificação para o decorrer do
jogo.
Enfim, como a minha bola de cristal continua pouco nítida, aderi à prática
mais popular da atualidade – a “parreirologia”, a pouco exata ciência de
adivinhar o que se passa na cabeça do técnico. Como ele é uma esfinge –
decifra-me ou devoro-te! – só nos resta deduzir o que vai por aquela massa
cinzenta de alta racionalidade. Andaram até fazendo leitura labial para
bisbilhotar as intenções ocultas do treinador e o flagraram soltando
palavrões quando Ronaldo marcou contra o Japão, uma espécie de desabafo em
relação aos jornalistas que pediam a cabeça do Fenômeno.
Fiquei aliviado ao ler esta notícia, e explico por quê. Enfim o Parreira dá
uma demonstração de humana emoção, mesmo errando o alvo. Ninguém questionou
Ronaldo por motivos pessoais e sim porque ele jogou uma bolinha indigna do
seu currículo nos dois primeiros jogos. Mas, enfim, Parreira explodiu e isso
em si talvez já seja algo positivo, pois o mostraria apto a passar
sentimentos para os comandados. O elenco, aliás, anda bem precisado de
alguém que lhe dê uma sacudida, porque ficamos o tempo nos ocupando de um
debate tático e técnico e nos esquecemos de que para vencer uma Copa do
Mundo é preciso também outro ingrediente, um algo mais que atende pelo nome
de paixão. Esta, eu ainda não vi dizer presente em jogos da seleção. E torço
para que ela entre em campo hoje mesmo contra Gana.
Tenho achado todo mundo tranqüilo, e no mau sentido do termo. Jogando
serenamente, como se uma partida de Copa do Mundo fosse como outra qualquer,
do Campeonato Espanhol ou do Italiano. Bons e corretos profissionais, estão
lá, exercendo a profissão, um meio de vida, um ofício entre outros. Me
lembro da frase de Gentil Cardoso (ou seria de Neném Prancha?) sobre a
necessidade de o jogador ir na bola como o faminto vai a um prato de comida.
Ou a de Nelson Rodrigues, dizendo que o ser humano não deveria sequer tomar
um copo d’água sem um pouco de paixão.
E, nesse ponto, não posso deixar de me lembrar, com alguma nostalgia, do
tempo em que o Luis Felipe Scolari dirigia a nossa seleção. Em especial
depois de assistir àquele tórrido Portugal 1, Holanda 0. As opiniões sobre
esse jogo estão divididas entre os meus camaradinhas de jornal. Há quem
tenha visto nele um mero festival de pancadas, uma partida bestial que
terminou com o número absurdo de quatro cartões vermelhos e 12 amarelos. E
foi mesmo uma batalha campal, como manchetaram vários jornais. Teve tudo
aquilo que o manual do politicamente correto aplicado ao futebol deplora –
jogadas tão ríspidas que colocam o futebol no limite estreito entre o
confronto simbólico e a guerra para valer.
Claro, a transposição dessa fronteira não pode ser o ideal de ninguém de bom
senso e, no limite, significa a própria destruição do jogo. Mas essa partida
com certeza ficará para a história do futebol português, como, por exemplo,
aquele inesquecível Santos 4, Milan 2, de 1963, permanece até hoje na
memória dos santistas. Vejo nesses jogos exemplos desse traço sem o qual o
futebol seria bem menos do que é – a paixão de vencer, qualquer que seja o
sacrifício pessoal necessário para isso. Que essa emoção maior chegue para a
seleção brasileira, juntamente com o “jogo bonito” que é sua melhor
característica. É da soma dos dois que nasce um verdadeiro campeão.

27/6/2006

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