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Quando o Brasil voltará a ser grande?

Se diante da humilhação de 2014 nada aconteceu, por que aconteceria agora, com uma desclassificação 'digna', diante de uma das melhores seleções da Copa na Rússia? Vamos continuar nos iludindo

Luiz Zanin Oricchio

16 de julho de 2018 | 12h35

 

A pergunta pode se desdobrar em duas: quando o Brasil voltará a vencer uma Copa do Mundo? e Quando o Brasil voltará a ter um futebol doméstico forte?

São duas coisas diferentes, embora interligadas, mas não de modo mecânico, tipo causa e efeito. As últimas Copas foram todas vencidas por europeus, com fortes campeonatos internos: Itália (2006), Espanha (2010), Alemanha (2014), França (2018).

No entanto, basta ter um campeonato interno forte para ter uma seleção forte na disputa da Copa? Fosse assim, países como a Alemanha e a Espanha não teriam ido tão mal nesta Copa da Rússia. Os exemplos se multiplicam, ao ponto de se falar da síndrome do campeão, que vai mal na Copa seguinte à que venceu.

O fato é que buscamos certezas onde elas não existem. O que existem são tendências. A ausência dos sul-americanos campeões do mundo nas últimas quatro Copas é um aviso sério. (Mas a Argentina chegou à final contra a Alemanha no Brasil). Assim como as sucessivas derrotas sul-americanas no Mundial de Clubes, dominado pelos europeus embora haja entre nós o mito que eles não levam muito a sério o torneio. Pode ser, e assim seria ainda pior: vencem até mesmo sem levar a sério.

A conclusão é inescapável: vivemos um momento de pleno domínio do futebol europeu sobre o sul-americano. Até os anos 1990 mais ou menos havia equilíbrio de vitórias entre as duas escolas. Depois, os europeus dispararam. E nós ficamos para trás.

Quando o êxodo de jogadores sul-americanos e de outros continentes em direção à Europa se estabeleceu como forma dominante do futebol mundial, alguns otimistas disseram que isto não teria efeitos graves sobre o nosso futebol.

Os argumentos: primeiro, a nossa capacidade de revelação de craques era tão grande que, para cada jovem exportado, surgiriam vários outros nas categorias de base para substituí-lo. O êxodo seria até benéfico pois possibilitaria a utilização mais rápida das revelações no futebol profissional

Segundo, as seleções nacionais dos países exportadores ficariam mais fortes porque, com todos os jogadores atuando na Europa, conheceriam melhor seus adversários. Aliariam a nossa capacidade individual (o nosso forte) à disciplina tática que aprenderiam na Europa, disciplina essa que é a nossa fraqueza.

Ora, nada disso aconteceu. Os campeonatos nacionais se tornaram progressivamente mais fracos em países exportadores como Brasil, Argentina e Uruguai, além de Colômbia e Peru. Basta ver o nível técnico atual da Libertadores da América.

As seleções, por sua vez, se descaracterizaram. Os nossos jogadores se tornaram como aqueles imigrantes tardios que, ao viver no país novo não dominam a nova língua e começam a tropeçar em seu idioma materno. Ficam entre dois mundos.

A seleção brasileira nem é totalmente “europeia” e nem completamente “brasileira”. Sentimos o Brasil, enquanto idioma futebolístico, apenas em um ou outro lance isolado. Funcionam como resquícios da língua materna, esquecida e dominada pelo idioma de chegada, que às vezes volta sob a forma de sintoma.

Desse modo, não era o Brasil, nem a Argentina, que mostrava o “jogo bonito” antigamente típico dos sul-americanos. Mais bonito e mais agradável era ver um jogo da Bélgica ou da França. A estes a globalização fez bem. E mais do que a globalização, o fato de suas seleções terem assumido um caráter multirracial. Melhorou o jogo. E, por extensão, pode melhorar suas sociedades.

Não existe um determinismo assim, automático, como muita gente quer: do tipo, “ah, se a seleção francesa é multirracial, então o racismo estará abolido na França”. Tomara fosse assim. Mas não é. No entanto, essas seleções alegres, inventivas e coloridas sinalizam uma conquista simbólica que não deve ser menosprezada. Devem ter efeitos benéficos sobre suas sociedades. Afinal, se um garoto tem como ídolos Pogba e Mbappé, é menos provável que se torne um adulto racista, não é?

Mas, e o Brasil?

Não espero nada, por enquanto. Se diante da humilhação da Copa passada, nada aconteceu, por que aconteceria agora, com uma desclassificação “digna”, diante de uma das melhores seleções da Copa? Vamos continuar nos iludindo.

A verdade é que, ao entrar de modo subalterno no modo globalizado do futebol, o Brasil se condenou a uma posição subalterna, essa em que agora estamos. Todos são cúmplices, porque todos lucram com essa situação – jogadores, técnicos, a CBF. O único prejudicado é o futebol do país.

Mas quem, além da torcida, se importa com ele?

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