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Que 2007 seja o ano das exceções

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h21

2/1/2007

Nesta primeira coluna, além de renovar os votos de feliz 2007 aos leitores,
me pergunto quem será a personalidade da bola no ano que se inicia. Digo
isso amparado num fato que é de domínio público, quase um óbvio ululante,
como dizia Nelson Rodrigues: futebol é jogo coletivo e assim deve ser
analisado, mas perde graça na ausência de protagonistas marcantes. Sem ao
menos um jogador que nos impressione por sua personalidade, por seu caráter
magnético, por sua aura, não há magia em campo. Sem magia não há poesia e,
sem poesia, futebol e vida se tornam chatos demais.
Esse jogador não precisa ser uma figura exemplar, embora figuras exemplares
também sirvam para o papel. Pode até ser um bad boy. Desde que seja aquele
cara para o qual os olhares convergem quando entra em campo. Aquele que
inspira respeito porque nunca se sabe o que irá aprontar de uma hora para
outra. Aquele tocado por alguma graça divina, como a raça em estado puro
(Rondinelli, Almir Pernambuquinho), a classe (Ademir da Guia), o espírito
lúdico (Garrincha, Ronaldinho Gaúcho, Robinho) ou todas essas qualidades
juntas (Pelé).
Na ociosidade futebolística do fim de ano pensei no caso e só encontrei um
nome destoante da mesmice de 2006: Zinedine Zidane. Revi jogos e lances da
Copa e agora, distante da paixão do momento, me encantei de vez com Zizou.
Que topete diante daquele inepto time do Brasil, dando chapéu em Ronaldo,
controlando a bola, fazendo embaixadinha diante dos pobres jogadores da
seleção brasileira. Que atrevimento! Aquele golaço contra a Espanha, feito
quase que com displicência, por desfastio. E no último jogo? Cobrando aquele
pênalti de cavadinha, como se estivesse jogando uma pelada num campinho de
terra batida e não uma final de Copa do Mundo. São momentos de pura
satisfação futebolística para hedonistas da bola.
E chego à cena final, uma das imagens mais marcantes do ano, a cabeçada seca
no peito de Materazzi, tão deplorada e discutida, mas testemunha, entre
outras coisas, da liberdade de Zizou consigo mesmo. Deve ter pensado, como
um raio, algo assim: “Quer saber, não vou deixar barato o que esse italiano
falou, e o resto que se dane”. Digam o que disserem, foi uma grande e
inesquecível saída de cena. Péssimo exemplo, mas com tanta personalidade…
Quem será esse jogador em 2007? Teremos esse tipo de boleiro, e no Brasil,
ainda por cima? Duvido um pouco e quero ser desmentido. Mas estamos em uma
bruta carência desse jogador que bota sal e pimenta num jogo. Robinho era
dessa estirpe e estava no caminho certo, mas foi comprado pelos euros e
talvez consigam domesticá-lo com o cabresto de Fabio Capello. Sabe quem eu
acho que pode ser assim no futuro? O Alexandre Pato, que teve a petulância
de controlar a bola no ombro algumas vezes no primeiro jogo do Inter no
Mundial de clubes. Mas é ainda um garoto. O Kérlon, aquele do drible da
foca, também seria candidato, mas sumiu de cena e agora, parece, anda
pretendido pelo Palmeiras. São ainda promessas, apenas isso.
Esse ano encerrado de 2006 foi marcado pelo discurso do bom senso, do elogio
à regularidade, à disciplina, ao controle racional do jogo. Foi o ano da
Itália campeã do mundo, e de Cannavaro, melhor jogador. Tudo muito justo e
certo, concordo, mas eu espero que no ano de 2007 tenhamos, além da regra,
também a exceção. Ou as exceções, se não for pedir muito.

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