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Quem é o dono da seleção?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h06

8/6/2010

Pronto, estamos às vésperas de mais uma Copa do Mundo e eis que sou obrigado a refletir sobre esta pergunta que não cala: afinal, de quem é a seleção brasileira? A frase, você já sabe, foi pronunciada por Dunga em uma das inúmeras coletivas de imprensa malcriadas que ele tem dado.

Um aviso: não estou mais a fim de pegar no pé do Dunga. Ele é o técnico, montou o time como bem entendeu e agora vai para o jogo. Pode-se discordar da escalação, mas só um louco poderia dizer, antes de a bola começar a rolar, que o Brasil não é um dos grandes favoritos ao título. Com um currículo de pentacampeão no bolso, e mais o privilégio único de ter participado de todas as Copas do Mundo, desde a inicial, em 1930 no Uruguai, até esta que se realiza pela primeira vez em continente africano, o Brasil seria favorito de qualquer jeito. É, ainda mais, com o retrospecto recente, de primeiro colocado nas Eliminatórias, de campeão da Copa América e das Confederações.

Então, passemos por isso, porque está fora de discussão – o Brasil está na África do Sul, não para participar, mas para disputar e ganhar o sexto título. Se vai conseguir, é outra história. Mas ninguém pode comandar esse time sem a ambição de levá-lo ao título. E essa fome, acho eu, o Dunga tem. Ele, a comissão técnica, os jogadores e mais os milhões e milhões de brasileiros que irão acompanhar aos jogos em suas casas, nos escritórios, nos telões e nos botequins.

E é exatamente esse respaldo de um país inteiro que impede alguém de chegar e falar em “minha’ seleção”. Dunga tem o comando. Convocou quem quis e escalou do jeito que preferiu. Pode fazer e desfazer. E nem mesmo assim a seleção será “dele”. Pelo simples motivo de que não se é proprietário de um patrimônio imaterial, e, portanto, inalienável. Gostemos, ou não, a seleção é de todos nós, em geral, e de nenhum de nós, em particular. Isso, no sentido mais profundo, vale para o torcedor do bar da esquina, para o sábio do futebol que assina suas colunas pronunciando verdades inamovíveis, vale para o Ricardo Teixeira e vale para o Dunga.

Foi sempre assim e em todos os países que têm no futebol o seu esporte nacional. O que não impediu poderosos de todas as épocas de tentarem se apropriar desse bem comum. Mussolini quis se identificar com a Azzurra de 1938, assim com o general Médici com a seleção brasileira de 1970 e o general Videla com a argentina de 1978. Nem por isso esses times históricos deixaram, de fato, de pertencer a quem de direito – aos povos da Itália, Brasil e Argentina, e não aos ditadores de plantão. Se esses tiranos de ocasião não conseguiram se apropriar do que não lhe pertencia, o que dirá um mero técnico de futebol? A seleção não é do Dunga, e nem mesmo dos jogadores que, ocasionalmente, vestem a sua camisa. Pertence ao patrimônio cultural da Nação. Por isso, por mais que tenhamos birra ou antipatia por este ou aquele personagem da cúpula dirigente, não conseguimos, de fato, torcer contra a seleção. Como em 1970 não conseguiram torcer contra aqueles militantes de esquerda que temiam a utilização política de uma eventual vitória pela ditadura. Porque sabemos, no íntimo, que a seleção nos pertence – e não aos figurões que nela mandam, ocasionalmente. “Eles passarão, eu passarinho” – dizia o grande poeta gaúcho Mário Quintana. Eles, os pássaros grandes, são transitórios, a seleção fica. Com tudo o que ela representa para cada um de nós e para o povo em seu conjunto.

Hoje anda na moda dizer que tudo isso não passa de futebol e que deveria ser encarado com um mero jogo, etc. Discordo. Se o futebol fosse apenas um jogo, não se transformaria nesse evento de dimensão mundial que nos mobiliza a todos. É que, através do jogo, as nações se olham e se medem entre si, numa prática esportiva que não é a guerra, mas é, sem dúvida, uma imitação da guerra, a sua sublimação em esporte e, no melhor dos casos, em beleza e arte. Daí a sua importância, que vai além das figuras pessoais, que podem ser maiores ou menores, mas são sempre transitórias.

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