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Retrato na parede

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h51

15/7/2008

Os flamenguistas tremeram na base quando Joel Santana saiu para treinar a
seleção da África do Sul. Natural, pois o técnico havia comandado a
fantástica recuperação do Mengo no Brasileiro do ano passado. E, quando Caio
Jr. foi indicado para o lugar de Joel, os flamenguistas tremeram mais uma
vez. Afinal, o rapaz gentil, de óculos de grife, não se parece em nada com o
protótipo do ex-jogador, durão e camarada, capaz de dialogar com os mimados
boleiros de hoje. E não é que Caio Jr. deu certo e seu time se tornou o mais
empolgante deste campeonato? Por isso, os mesmos flamenguistas que torciam o
nariz na chegada de Caio Jr. temem agora perdê-lo para o futebol árabe, como
já se anunciou.
O fato é que, por algum motivo, esse time do Flamengo, que terminou o ano
passado vencendo, começa este campeonato ganhando e jogando bonito – quer
dizer, jogando bem. Se isso tem a ver com o dedo de Caio Jr. não sei, mas é
provável. Afinal, se eu e outros comentaristas amigos passamos a vida a
relativizar a importância desses grão-senhores do futebol que são os
treinadores, temos também a obrigação de reconhecer quando um deles vai bem
e cumpre sua obrigação. Isto é, quando monta um time que vence e apresenta
um futebol consistente.
Quem vê hoje o Flamengo jogar sabe que está diante de um time de futebol,
coeso e bem articulado. Fluente. A dúvida é se continuará nesse ritmo, coisa
que ninguém, em sã consciência, pode garantir. O futebol brasileiro é a
atividade mais instável do mundo. Pior que bolsa de valores em tempo de
especulação. Havia no horizonte a saída de Caio Jr., que acabou por não se
concretizar. E há o famoso desmanche, que sempre ronda qualquer time
brasileiro até que se feche a famosa janela européia de contratações. Até
lá, nenhum time e nenhuma torcida podem se sentir seguros. Mas que o Mengão
disparou bonito na frente, lá isso é inegável.
De certa forma, o Flamengo tem feito, nesse campeonato, tudo aquilo que se
esperava do Palmeiras. No entanto, as coisas parecem ainda meio emperradas
pelos lados agora afluentes do Parque Antártica. Depois do bom começo de
ano, com a conquista do Campeonato Paulista, o time de Luxemburgo tem
oscilado mais do que devia. Foi o que se viu no clássico de domingo contra o
São Paulo. Eu francamente esperava um jogo mais equilibrado. Mas o São Paulo
dominou quase o tempo todo. Poderia ter acabado a etapa inicial vencendo por
dois ou três gols de diferença. Depois o Palmeiras equilibrou e até chegou a
descontar. Mas quem viu a partida sabe que não poderia haver outro vencedor
que não o São Paulo. O próprio Luxa, que não é disso, reconheceu a
superioridade do adversário.
O que está acontecendo com um e com outro? Bem, o São Paulo, pelo menos
nesse jogo, parecia um time empenhado em se firmar. Sólido do ponto de vista
tático, mostrou também disposição bem maior que a do adversário. Marcou bem
e saiu jogando com velocidade. Não fosse a má pontaria de Dagoberto e Hugo,
o desastre palmeirense poderia ter sido completo.
Já o Palmeiras, que de fato foi bem marcado, também mostrou certa apatia.
Valdivia não foi visto no jogo e, sem ele, o meio-campo do Palmeiras perde
muito em criatividade. Todos negam, mas algumas cabeças parecem estar
distantes, no além-mar, para falar como nossos irmãos portugueses.
Luxemburgo adotou o discurso de que tudo isso é normal no futebol
globalizado. Certo. Mas é difícil para o boleiro manter o foco quando pensa
que em pouco tempo estará longe e que seu clube atual será apenas “um
retrato na parede”, e nada mais, como diz um certo poema de Caros Drummond
de Andrade.

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