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Rivais em direções opostas *

Luiz Zanin Oricchio

13 de janeiro de 2015 | 08h52

Ninguém tem bola de cristal, mas alguns movimentos dizem o que se pode – e o que não se pode – esperar dos clubes paulistas neste início de ano. De Corinthians e São Paulo, que terminaram o Campeonato Brasileiro em posição melhor, já se sabe que serão competitivos. O São Paulo está na Libertadores e o Corinthians precisa passar pelo Once Caldas para entrar na fase de grupos. De toda forma, estar hoje em dia na Libertadores significa muito, tanto em termos simbólicos quanto financeiros.

As novidades, tanto positivas como negativas, ficam por conta de Palmeiras e Santos. A boa nova vem do Palmeiras que, depois de quase cair em 2014, parece ter tomado a injeção de autoestima que o faz enxergar o óbvio: é clube de tradição grandiosa, para viver disputando títulos e não brigando para escapar do descenso. Tem contratado bem, e seu presidente, Paulo Nobre, marcou um golaço ao trazer o atacante Dudu, que também interessava a Corinthians e São Paulo. E agora, outro, com Robinho, ex-Coritiba. Em tese, são ótimos reforços. Mas, além disso, representam uma mudança de atitude. O Palmeiras está de volta e briga entre os grandes, com os seus iguais. Faz parte do Trio de Ferro, fato que nos últimos anos era quase esquecido em função de administrações medíocres. Não basta a um clube ter grandeza; é preciso assumi-la e afirmá-la, como o Palmeiras vem fazendo.

Já a má notícia fica por conta do Santos, com um começo de ano terrível. Com salários atrasados, Arouca e Mena já entraram na justiça para desligar-se do clube. O destino de Arouca deve ser o Palmeiras e o de Mena, o Cruzeiro. Outros jogadores podem seguir o mesmo caminho. Há cheiro de desmanche no ar. Ora, o elenco já não era lá essas coisas, como ficou provado pela campanha sofrível de 2014. Se não contrata ninguém e perde os poucos jogadores de qualidade que tem, como enfrentará seus compromissos? É o que a torcida vem murmurando pelos cantos, cabisbaixa. Tenho falado com muitos torcedores santistas, não fanáticos, mas gente lúcida, e todos compartilham o mesmo pensamento – 2015 será ano de lutar para não ser rebaixado. Pode o time de Pelé ser submetido a tamanha humilhação? Brigar para não cair?

Se o Palmeiras parece disposto a reencontrar-se com sua grandeza, o Santos mostra-se esquecido da sua. De estádio novo (perdão, de “arena” nova, como gostam os modernetes), o Palestra entra em 2015 para disputar títulos. O Santos já tem seu estádio que, apesar das limitações físicas, é um templo do futebol. Possui mais que isso: longa tradição de títulos, jogadores mágicos e revelações surpreendentes, mas encara 2015 com o horizonte mediano de evitar o pior. Péssimo começo de dirigentes recém-empossados.

Claro, estes podem se defender como fazem os políticos quando há alternância de poder e se queixam da “herança maldita” deixada pelos antecessores. Pode ser isso mesmo. A gestão anterior do Santos vendeu um time inteiro de bons e ótimos jogadores (inclusive um craque), contratou mal e acabou afundada em dívidas. Onde foi parar o dinheiro? Durante a campanha, as oposições costumavam dizer que a situação financeira do clube era “um filme de terror”. Ouvi essa expressão mais de uma vez pelos lados da Vila.

A primeira coisa que ocorre seria perguntar por que se deseja comandar uma entidade falimentar? Vamos admitir que seja por senso de dever. Assume-se a direção do clube que se ama para tirá-lo da situação difícil deixada pela (má) gestão anterior. Ok. Nesse caso, a obrigação seria abrir a caixa-preta e mostrar à luz do sol a dura realidade das contas santistas. Exibir à comunidade alvinegra esse filme de terror, do princípio ao fim, para que todos tenham consciência do que enfrentarão. Caso oculte os malfeitos da gestão anterior, a atual diretoria passará recibo a eles e assumirá culpa que talvez não seja sua. Mau negócio.

* Publicada na versão impressa do Estadão