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Rogério Ceni e a mística dos números redondos

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h57

Para fugir das gozações, os corintianos aqui do jornal diziam o
seguinte: “Para a Fifa, não foi o centésimo gol; o Rogério só fez 98
até agora”. Guerra é guerra. E, no futebol (essa guerra em tese
atenuada e simbólica), vale tudo para se defender, ou para atacar o
rival. Já os são-paulinos, felizes com o feito que consideram, com
toda justiça, indiscutível, nem entravam no mérito da discussão.
Apenas riam pelos cantos. Eram a imagem da felicidade.

Engraçada essa nossa paixão pelos números redondos. Eles nos remetem a
uma simbologia toda particular, a uma mística que os faz diferentes
dos outros. Os corintianos não pareciam tão incomodados com o fato de
terem tomado um gol de falta de Rogério Ceni, tento que definiu um
clássico de alta voltagem e pôs fim a um tabu incômodo. O problema é
que esse gol seria o de número cem na carreira do jogador. O time que
o sofresse ficaria marcado para todo o sempre, enquanto se falasse de
futebol pelo mundo. Marca que teria o goleiro-artilheiro do São Paulo
como protagonista e toda a nação corintiana, a começar pelo goleiro
Júlio César e incluindo toda a Fiel e seu bando de loucos, como
coadjuvantes de um feito notável. Num mundo de utopia, todos deveriam
até se orgulhar disso, no futuro. Bater no peito e dizer: “Eu estava
lá e vi”. Como deveriam fazer todos os santistas civilizados que foram
à Vila Belmiro certo domingo e assistiram a Ronaldo marcar dois gols
de antologia em seu time. Mas não é bem assim. Nunca foi, nem em
outros tempos, tidos como mais amenos.

No exemplo clássico: não foi assim nem mesmo quando Pelé marcou o
milésimo gol, contra o Vasco, vencendo o goleiro Andrada na cobrança
de um pênalti. O Brasil inteiro ansiava pelo milésimo do Rei. Mas o
que se viu no estádio? Um goleiro espichando-se todo em direção à
bola, quase a alcançando e depois esmurrando o gramado, de raiva, ao
constatar que a bola estava na rede. Andrada odiou entrar para a
história como aquele que havia sofrido o milésimo gol de Pelé. Mas,
engraçado: hoje, aposentado, Andrada sabe que deve muito de sua fama
àquele gol. Pelo menos, ele é sempre lembrado pela imprensa a cada vez
que se comemora uma data, também redonda, do feito de Pelé.

Há toda uma magia nesses números. E, quando se completam, adquirem a
forma perfeita, “redonda”, esférica e sem arestas, de uma proeza
humana. Fazer mil gols, como Pelé. Ou fazer cem gols, como o goleiro
Rogério Ceni. São números que provocam vertigem quando pensamos neles.
Por exemplo, poucos artilheiros, jogadores de linha, podem se gabar de
terem chegados aos 300 ou 400 gols ao longo de suas carreiras. Para se
ter ideia: um matador como Ronaldo Fenômeno tem 352 gols assinalados
em sua gloriosa passagem pelos gramados. Rogério, defendendo sua meta,
e cobrando faltas e pênaltis, chegou aos cem. Não é notável? Pois eu
digo que é uma façanha quase incrível. Todos nós devemos nos sentir
privilegiados por testemunhar essa marca. E os são-paulinos mais ainda
porque Rogério marcou os cem com uma única camisa, a do São Paulo.
Essa constância, essa fidelidade a um clube, é o que há de mais raro
hoje em dia. Quase tão raro quanto goleiro artilheiro que faz uma
centena de gols.

Seleção. Para um fim de semana tricolor a mais não poder, não poderia
faltar uma alegria adicional para os tricolores. Quem acompanhou o
jogo da seleção brasileira contra a Escócia deve ter firmado a
convicção de que Lucas não pode sair do time. Ao entrar no segundo
tempo, o garoto deu outra agressividade à equipe de Mano Menezes. Dá
gosto vê-lo jogar. Não sentiu o peso da camisa. Pelo contrário, a
amarelinha lhe pareceu leve, leve. Como a alma tricolor neste último
domingo.

Boleiros, 29/2/2011

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