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Saber o que se quer da vida

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h51

Os clubes, como as pessoas, têm de saber o que querem da vida. E não há,
neste momento, clube brasileiro que tenha objetivos tão claros e definidos
quanto ao presente e o futuro como o São Paulo.
Já é o terceiro time de maior torcida no Brasil, ficando atrás apenas de
Flamengo e Corinthians. Mas, ao contrário desses dois, que se comportam como
aquele cara que não sabe se casa ou compra uma bicicleta, o São Paulo parece
ter definido de maneira muito nítida sua estratégia de crescimento. Sabe que
a torcida é o maior patrimônio de um clube. E sabe que torcedor se conquista
na infância, e com time vencedor.
Assim, o São Paulo se preparou muito bem para a conquista da Libertadores do
ano passado e para o terceiro título mundial. Em 2006 mantém a política.
Como deseja vencer a Libertadores e assim disputar de novo o Mundial
Interclubes, mas também quer levar a sério o Brasileiro, sabe que precisa de
um elenco forte e diversificado. Tem mantido seus melhores jogadores, dentro
das limitações do futebol brasileiro. Quando isso não é possível, não chia e
os repõe com qualidade. Escolhe certo, vai atrás de atletas em fim de
contrato e não hesita em atravessar negócios alheios, como fez com Lenílson,
que iria para o Santos, ou Ilsinho, que era do Palmeiras.
Parece, dos clubes brasileiros, o mais bem adaptado ao atual estágio do
futebol mundial. Não briga com as regras do mercado e as utiliza em seu
proveito. Não sei se serve como modelo para os outros clubes ou para a
sociedade mas, enfim, mostra de que maneira se sobrevive em ambiente
predatório como o do futebol atual.
Com essa política pragmática, o São Paulo chegou à situação de dispor de
dois bons jogadores para quase todas as posições, o que lhe permite avançar
com certo conforto pelas competições que disputa. Pode não dar certo, porque
futebol não é matemática. Mas por enquanto o planejamento compensa.
As contraprovas do caso São Paulo são óbvias. O Palmeiras, que começou a
tirar o pé da lama, mas não deve comemorar nada, ainda não se conscientizou
de que pode manter sua venerável tradição livrando-se ao mesmo tempo de uma
estrutura arcaica. O Corinthians tentou se modernizar a fórceps, entrando no
capitalismo da bola pelo lado mais especulativo, para usar um termo gentil.
Procurou capitalizar-se sem preocupações quanto à origem do dinheiro e vive
agora uma fratura interna cujos efeitos são visíveis em campo. Há quanto
tempo se espera que o atual time do Corinthians finalmente engrene? Bem, não
à toa ambos, os grandes rivais paulistanos, continuam na zona de
rebaixamento enquanto o São Paulo surfa na liderança.
Quanto ao Santos, firme na queda livre, a situação não parece muito
diferente, embora seja mais confortável (ainda) que as de Palmeiras e
Corinthians. Depois do desmanche do time vencedor formado em 2002, viu-se
forçado a recomeçar do zero. Do zero em termos, porque encheu os cofres com
as vendas dos jogadores e, em especial, ao se desfazer da jóia da coroa,
Robinho. Trouxe de volta Vanderlei Luxemburgo e começou um trabalho de
renovação que à primeira vista deu certo, com a conquista do Paulistão. Mas
todo mundo sabia que aquele time era insuficiente para a campanha do
Brasileiro.
Vanderlei se tornou um mestre cuca que não dispõe de ovos para seu omelete.
Deve ser triste olhar para o banco e ver as opções que tem para mudar uma
partida, como aconteceu contra o São Caetano. Forrado de dinheiro, o Santos
apequenou-se no exato momento em que deveria ter dado o salto de qualidade.
Quem freqüentou a Vila Belmiro de 2002 a 2004 , e presenciou o entusiasmo de
uma torcida jovem e crescente, sabe que aquela foi uma grande oportunidade
perdida. Chances como essa não costumam se repetir na vida de um clube. E o
Santos já teve duas.

18/7/2006

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