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Santos x Corinthians, uma rivalidade de 100 anos *

Luiz Zanin Oricchio

15 de julho de 2013 | 15h07

A cada vez que Santos e Corinthians jogam, entra em campo, também, uma rivalidade de cem anos. Parece incrível, mas um século decorreu desde que os times se enfrentaram pela primeira vez em 6 de março de 1913, no Parque Antártica. Todos nós, torcedores de um ou de outro, somos, de certa forma, frutos e filhos dessa rivalidade. Crescemos dentro dela e dela nos alimentamos.

Torcedores santistas da minha geração foram criados com o doce alimento do tabu. Sim, em tempos idos, o Corinthians passou 11 longos anos sem vencer o time da Vila Belmiro que, naquela época, era um esquadrão, o melhor de todos os tempos, capitaneado por Pelé no auge dos seus poderes reais. E, assim, um jogo após o outro, o Santos ia vencendo ou empatando com o rival, cada vez mais desesperado para quebrar esse incômodo retrospecto negativo.

Como todos os tabus, esse um dia tinha de cair. Foi em 1968, quando o Corinthians venceu o Santos no Pacaembu por 2 a 0. Ironia das ironias, o Timão, na época, tinha como técnico o mitológico Lula, o grande Luiz Alonso Perez, que havia treinado o Santos por nada menos que 12 temporadas seguidas, de 1954 a 1966. Lula foi um pouco o nosso Alex Ferguson, o eterno treinador do Manchester United, há pouco aposentado depois de 26 anos dirigindo o clube.

De qualquer forma, aquela quebra de tabu foi um acontecimento para corintianos, que transformaram Paulo Borges, recém-contratado e autor do primeiro gol, em herói do dia para a noite. Mas, para nós, santistas, o tabu sempre permaneceu como uma das grandes glórias do clube. Algo a ser lembrado e valorizado em nossa história. Claro que o Corinthians tem sempre o que nos atirar na cara. Dos infames 7 a 1 de 2005, que eles ostentam em faixas na torcida, ao retrospecto geral, que (ainda) lhes é favorável.

Quando caiu o tabu, amigos corintianos, que eu atormentara durante anos, vingaram-se. Estavam me esperando na porta do colégio e o mínimo que fizeram foi me jogar dentro de uma fonte que havia no pátio. Foi um preço pequeno a pagar em relação ao prazer que aquele tabu me proporcionou anos afora. Minha amizade, com meus queridos colegas corintianos, permaneceu intacta. Anos depois, quando meu time já não era nem sombra daquele esquadrão de Pelé, Edu, Toninho Guerreiro, Carlos Alberto Torres e outros cobras, eu ia com esses amigos ao estádio ver o Dr. Sócrates jogar. Apenas pelo prazer de assistir ao bom futebol, que já não era uma característica do meu time.

Assim são, ou deveriam ser, as rivalidades. Nosso rival não é nosso inimigo. É nosso espelho, um nosso igual, só que do outro lado. Gostamos de derrotá-lo, mas não vivemos sem ele. É o nosso Outro. Mesmo porque todo grande time tem de ter um grande rival. Do contrário, o futebol não tem graça.

* Texto originalmente publicado no catálogo do Cinefoot de 2013

 

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