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Santos x Palmeiras: o jogo certo por linhas tortas

Se a primeira partida pela decisão da Copa do Brasil já foi emocionante, apesar de tosca em alguns lances, a segunda tem tudo para ser ainda melhor. O Santos tem apenas uma pequena vantagem

Luiz Zanin Oricchio

27 Novembro 2015 | 13h08

Um amigo querido, o escritor Braulio Tavares, escreveu em sua página do Facebook este comentário sobre Santos 1 x 0 Palmeiras: “Acabei de ver Santos 1×0 Palmeiras, jogo de ida da final da Copa do Brasil. O Santos venceu com justiça num jogo muito sujo, que parecia uma lauda cheia de rasuras e borrões. A chuva não o deixou menos acidentado. O Santos venceu a primeira, com números precários, e tem um time melhor que o do Palmeiras, onde só gosto de Fernando Prass e de Zé Roberto. Mas Dorival não é tão bom técnico quanto Marcelo Oliveira (que tem ganho grandes títulos mas ainda não ganhou o da Copa do Brasil). O santista Gabriel perdeu um pênalti mas depois se redimiu fazendo o gol da vitória. O atacante que entrou no final perdeu um gol absurdo, mas tem chances de redenção. Ninguém ganhou nem perdeu nada ainda.”

Respondi a ele dessa forma: “Gostei da comparação. Se fosse um texto, o jogo de hoje viria cheio de faltas de ortografia, má colocação pronominal, erros de concordância e vírgulas mal postas. Mesmo assim, seria mais interessante que muito texto limpinho que tem por aí.”

O Braulio ainda respondeu que, quando o jogo tem alma, já tem 50% garantidos e qualquer lasquinha é lucro.

Também penso dessa forma. E acrescento que alma não faltou a esse jogo meio tosco. E tão tosco que até o técnico vencedor falou mal dele: “Onde se viu, menos de 40% do tempo de bola rolando?“, indignou-se Dorival Jr. Para lembrar: a Fifa recomenda ao menos 60% do tempo de bola em jogo.

Antes mesmo de a partida começar, Dorival já alertara para o péssimo estádio do gramado. Justo na Vila, que nos últimos anos tem se caracterizado por apresentar um tapete persa como campo de futebol. Vários jogos, de futebol feminino e de categorias mais jovens sobrecarregaram o gramado de Urbano Caldeira, e justo na véspera de uma decisão importante. É ou não é um fato capaz de falar alto e bom som sobre a capacidade de planejamento do cartola brasileiro?

Enfim, se não estava um pasto, o gramado também não era adequado para um espetáculo em que a bola precisa correr lisinha sobre a grama, como uma bola de sinuca rola sobre o pano de uma mesa profissional e sem descaídas.

Depois, havia o fato de ser o “primeiro tempo” de uma final. O Palmeiras desceu a serra com um bom empate como objeto de desejo. E quase o consegue, não fora o gol iluminado de Gabriel, que, com ele, compensou um pênalti desperdiçado. O Palmeiras, a rigor, teve uma chance, logo no começo da partida, e depois pode se queixar de um pênalti não marcado de David Braz sobre Lucas Barrios. O argentino/paraguaio diminuiu a passada, provavelmente para ser atingido, e Braz, atabalhoado, atropelou o palmeirense. Um típico pênalti “brasileiro”. Mas estamos no Brasil, afinal.

Fora isso, o Palmeiras nada produziu em termos ofensivos. Já na defesa, conseguiu dificultar bastante o trabalho do Santos que, mesmo assim, criou várias chances para sair com placar mais amplo. Esbarrou ora em Fernando Prass (que está lá para isso), ora na própria incompetência. A maior delas, quando Nilson jogou para fora a bola quando tinha o gol aberto, sem goleiro, sem zagueiro, sem ninguém. Era só ele, a bola, as traves, a rede. Chegou desequilibrado e chutou para fora, num dos gols perdidos mais inacreditáveis da história do futebol. Apenas para lembrar: as dimensões oficiais de um gol são 7,32m de largura por 2,44 de altura. Área total de 17,86 m metros quadrados, maior que a de alguns apartamentos compactos que estão sendo vendidos por aí, a preços de imóveis em Dubai.

Pode fazer falta ao Santos na segunda partida e beneficiar o Palmeiras. Uma coisa é começar com a desvantagem de um gol. Outra é trazer o peso de dois gols nas costas. Não é uma questão apenas numérica. É também psicológica. À medida que o tempo vai passando, a pressão aumenta, a torcida se impacienta, o jogador fica mais tenso, a perna pesa, o cérebro se turva. Fica tudo na medida para que o adversário, caso jogue de maneira inteligente, se valha desse estado de nervos do oponente, encontre os espaços vazios e amplie sua vantagem.

Já com apenas um gol contra, o Palmeiras pode pressionar com mais calma, sem se atirar atabalhoado ao ataque. Pode definir um plano de jogo mais sereno. Por exemplo, dedicar os primeiros 45’ a empatar o placar para então, em casa e ajudado por sua torcida, liquidar a fatura no segundo tempo. Já o Santos precisa cuidar da defesa, mas nem por hipótese abdicar do ataque. Seu melhor cenário seria marcar um gol no contra-ataque, o que levaria o adversário ao desespero. Mas, mesmo quando não consegue marcar, um time que se mantém ativo no ataque preocupa o adversário e evita uma pressão em massa.

Os técnicos estão calvos de tanto saber disso tudo, mas nem sempre colocam o óbvio em prática. Preferem inventar e, em 99% das vezes, quebram a cara. Há também os jogadores que, em campo, embora comandados pelo treinador, desenvolvem uma dinâmica própria. É notório, por exemplo, que Marcelo Oliveira não quer ver o Palmeiras fazendo ligação direta entre defesa e ataque. Mas os jogadores teimam em dar chutões, provavelmente porque, em determinadas fases do jogo, falta-lhes a confiança para sair trocando passes.

Enfim, o futebol é jogado de forma muito simples, mas é um jogo muito complexo, com tantas variáveis que costuma pôr no ridículo as previsões dos iluminados.

Se a primeira partida, com todas as suas limitações técnicas, já foi muito emocionante e interessante, a segunda tem tudo para ser ainda melhor. Haja coração, como dizia um narrador esportivo das antigas.

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