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Saudades do Brasileirão

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h58

Não sei você, mas sou dependente químico do futebol e mal terminou o
Brasileirão já ando carente. Masoquismo, talvez, levando-se em conta o que
foi esse torneio que, coerente consigo mesmo, termina como deveria: sub
judice. Virou o campeonato dos tribunais, com os boleiros saindo de cena e
cedendo vez a advogados e juízes.
Assisti a Goiás x Corinthians em João Pessoa, onde estava a trabalho.
Resolvi ver o jogo num telão de restaurante à beira mar. Pensei que fosse um
programa tranqüilo, apenas um passatempo para a população local. Afinal, na
Paraíba as grandes rivalidades se dão entre o Treze de Campina Grande e o
Botafogo, da capital. Mas qual não foi minha surpresa quando corintianos,
com suas bandeiras e camisas, começaram a invadir o local. Não estavam sós.
Chegaram também são-paulinos, palmeirenses, santistas, todos devidamente
paramentados. E veio gente do Rio e de toda a parte, torcedores de Flu, Fla
e Vasco. Teve até um gremista, orgulhoso de sua camisa recém-promovida.
Mas a maioria era mesmo de corintianos, uns 25 a 30 torcedores. Uma amiga
ficou curiosa e foi perguntar a eles se eram turistas de São Paulo em férias
na cidade. Nada disso. Apenas um havia nascido em Sampa, e no Tatuapé. Os
outros eram nordestinos. Paraibanos ou pernambucanos vindos do Estado
vizinho. Todos torciam pelo Timão, e o resto da galera no bar torcendo
contra, secando. Pensei que fosse sair briga, mas que nada. Houve muita
gozação e, depois da partida, confraternização. O futebol é isso: uma grande
festa popular. Não tem sentido de outra forma.
Com esse poder de penetração Brasil afora, times populares como Corinthians
e Flamengo não poderiam dar errado. São duas marcas poderosas, que
atravessam fronteiras. No entanto, o que se vê é um sendo sustentado por
dinheiro de origem obscura e o outro namorando essa mesma fonte de grana. É
como se dissessem que não existe solução honesta para o futebol brasileiro.
Que, para competir no mundo do futebol globalizado, seria preciso deixar
pruridos de lado, tapar o nariz e partir para o vale-tudo econômico.
Podem me chamar de romântico que até acho graça, mas não gostaria que
dinheiro da máfia internacional entrasse no meu time. A modernidade talvez
passe por outros caminhos, não necessariamente suspeitos, embora falar de
honestidade possa parecer um papo meio saudosista hoje em dia.
Por falar em saudosismo, o que dizer de um campeonato que tem o Romário 4.0
como artilheiro? É verdade, a chuteira de ouro vai para um dos maiores
jogadores de todos os tempos, mas dizer que ele, com quase 40 de idade, está
em fim de carreira é ser meio ameno. De qualquer forma, o próprio Romário
matou a charada quando declarou, ainda no meio do campeonato: “Peixe, com o
nível das zagas brasileiras, acho que ainda dá para jogar mais uns dois ou
três anos.” Dá mesmo.
Porque, convenhamos, o campeonato foi emocionante e cheio de incidentes,
alternativas e mudanças de percurso. Mas tecnicamente não foi lá essas
coisas, nem poderia ser, já que os craques estão fora. Não podemos confundir
emoção ou média alta de gols com qualidade técnica. Peladas em geral têm
placares elevados, e um 0 a 0 pode ser um clássico. Como o futebol não
tolera muito análises quantitativas melhor pensar na qualidade, e esta não
foi a característica mais evidente do Brasileirão 2005.
Ainda assim, daria para formar uma ou mais seleções com os jogadores que
disputaram o principal título do País. Veja se um time como esse faria feio
em qualquer competição mundial: Rogério Ceni; Paulo Baier, Lugano, Gamarra e
Gustavo Nery; Marcelo Mattos, Arouca, Petkovic e Ricardinho; Tevez e Rafael
Sóbis. Talvez treinado pelo Muricy Ramalho.
Eu gostaria de pensar que agora, enquanto a bola estiver parada, os
dirigentes irão ocupar o tempo para repensar o futebol brasileiro. Talvez
elaborar um projeto que o tore mais poderoso e melhor no plano interno. Mas
sei que não vai ser assim. Enquanto isso, nós, torcedores, continuaremos
carentes do jogo da bola, que é o que nos interessa. Com saudades desse mais
do que imperfeito Brasileirão que se foi e na expectativa do próximo, que
virá, tomara melhor e mais honesto.

6/12/2005

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