As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Será que Dunga é nosso Mourinho?

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h04

25/5/2010

Se você viu a final entre Internazionale e Bayern no sábado, pode ter visto o que será a Copa da África. Ou, pelo menos, o que serão as principais seleções, aquelas que disputam o título. Entre elas, a do Brasil. Marcação forte e saída rápida no contra-ataque. A exceção pode ser a Espanha e, talvez, a Argentina. A Inter propôs um modelo a ser seguido. Não porque seja a única maneira de chegar a um título (ano passado, o Barcelona ganhou tudo jogando de maneira oposta), mas porque é a fórmula que prevaleceu.

Dunga deve ter vibrado. E não digo isso com antipatia, mas com compreensão. Uma das maiores paixões do ser humano é a de ter razão. Podemos até torcer contra os nossos próprios interesses se nos for dada a compensação de estarmos certos no final das contas. O prazer sutil de podermos sorrir, discretamente, como quem diz “Eu não falei que ia ser assim?” Dunga tem certeza de que está certo.

Ficamos assim: esse estilo de jogar se impôs naquele que os nossos cronistas chamam de “o maior torneio de clubes do mundo”. Na verdade, já havia se imposto antes mesmo da decisão porque o Bayern não chega a ser o anti-Inter de Milão. Não era aquele jogo dos sonhos (ao menos para mim), em que dois estilos antagônicos se enfrentam e decidem qual é o melhor, naquele confronto. Esse jogo já havia acontecido entre Inter e Barcelona, e o time italiano chegou à final jogando na retranca.

Não vou dizer que seja um estilo feio. É monótono, como era o de Parreira em 1994, Copa que valeu ao Brasil o quarto título mundial. Por acaso revi esse jogo domingo à noite, numa dessas oportunas reprises que a ESPN vem promovendo. São maneiras, vamos dizer assim, enxadrísticas, de conceber o futebol. Jogo posicional. Muita ocupação de espaço, posse de bola, defesas que cometem poucos erros. E, na retomada da bola, contra-ataques rápidos para tentar um golzinho lá na frente. Foi interessante ver como o Brasil, mesmo em 1994, se acomodava mal àquela camisa de força e, amarrado pelo esquema, ainda tentava a vitória mais do que a Itália. Ainda mais na prorrogação, quando entrou Viola e, furando o planejamento, quase consegue marcar em jogada individual.

Desde então se cristalizou uma falsa certeza que já havia sido esboçada com a derrota de 1982 – existe um futebol para ver e outro para vencer. É preciso optar entre um e outro. Quando as coisas são colocadas nesses termos, não existe bom senso que aguente. Ou é uma coisa ou outra, sem qualquer possibilidade de nuance. Não damos valor a uma ótima seleção porque perdeu um jogo ou desprezamos uma outra que, sem ser brilhante, nos deu um título e nos tirou de uma fila de 24 anos. Tudo é futebol e todos têm o seu mérito, embora possamos, e devamos, manter as nossas preferências.

Já se disse que o Mourinho do Real Madrid não poderá ser o Mourinho da Internazionale. Nesta, com um time que não tinha sequer um único jogador do país-sede, ele imprimiu um DNA tipicamente italiano, e portanto aceito e valorizado. Na Espanha dificilmente poderá colocar em prática esse futebol mesquinho. Ainda mais tendo como rival e espelho o jogo vistoso e vencedor do Barcelona. Tudo depende das circunstâncias. E, fundamentalmente, dos jogadores de que dispõe o técnico para armar seu esquema. No fundo, os boleiros são o mais importante, constatação óbvia mas que esquecemos a cada instante.

O que se reprova em Dunga não é a mesma coisa que se reprovava no Parreira de 1994. Talvez não houvesse, naquela época, alternativa para formar uma seleção mais criativa, ofensiva e competitiva. Hoje há. Mas Dunga optou por uma concepção de futebol que sacrifica o craque em favor do esquema. Pratica uma espécie de pobreza voluntária.



Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: