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Síndrome de abstinência

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h10

Estamos na entressafra do futebol. Sim, sei que os campeonatos europeus estão a pleno vapor, Cristiano Ronaldo deve ter sido eleito o melhor do “mundo” e a Copinha já começou faz algum tempo. Acontece que não me interesso muito pelos europeus e a Copa São Paulo, nessa primeira fase ainda muito inchada me parece um tédio; só passo a acompanhá-la com interesse quando os times de aluguel caem fora.
Então, encontro-me em estado de privação futebolística, essa espécie particular da síndrome de abstinência de que sofrem alguns dependentes – químicos ou psicológicos. Talvez isso explique o que me aconteceu domingo, quando gozava um dos meus últimos dias de férias.
Dia de sol (raro, nesse esquisito verão brasileiro), voltei da praia e, de maneira meio mecânica, liguei a TV. Por acaso, passava um jogo. Uma antiga partida, em preto e branco. Logo reconheci a voz do narrador – Luiz Noriega que, se não me engano, foi o inventor da sobriedade na transmissão esportiva pela televisão. Numa época patrioteira e destemperada, Noriega limitava-se a acompanhar e comentar brevemente os lances, identificando os jogadores, na confiança de que o espectador, tanto quanto ele, estaria vendo com seus olhos o que se passava em campo. Não era redundante e nem gritava os gols; mudava apenas de leve a ênfase da narração. Um britânico. Minimalista.
Reconheci de imediato as camisas, e os nomes familiares começaram a me chegar aos ouvidos, enquanto via a maneira amigável como tratavam a bola: Ademir da Guia, Rivellino, Luiz Pereira, Zé Maria, Leão, Ado…Caiu a ficha: era um Corinthians e Palmeiras dos anos 70. Na verdade (descobri depois), eram imagens de um grande e emocionante jogo entre os dois rivais pelo Campeonato Paulista de 1971.
Pensei: “Vou dar uma olhadinha, uns cinco minutos no máximo, depois vou almoçar e cuidar da vida”. Acontece que a bola ia e vinha, de lado a lado, tocada com tanta qualidade, com tanto engenho e arte, que acabei por adiar o almoço e vi o jogo inteirinho. Sim, porque o programa Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, passou o jogo na íntegra, única maneira possível de você realmente voltar no tempo e ver como se jogava em outra época. Não adianta mostrar gols e nem mesmo melhores momentos. Você só compreende de fato uma partida quando a vê por completo.
E assim deixei-me hipnotizar por essas imagens que vinham do passado. Claro, deixemos de idealizações e nostalgias baratas: nem todos eram craques. Mas havia uma quantidade apreciável de bons jogadores em campo para garantir um espetáculo de alta qualidade ao público (66 mil pagantes) que enfrentou o tempo frio de São Paulo para ir ao Morumbi naquela tarde. E, além desses bons e ótimos jogadores, havia os fora-de-série, em especial Ademir e Rivellino, que, sem se encontrarem muito em campo, travavam um duelo particular, um duelo à distância, por assim dizer. Ademir cadenciava o jogo e ditava o ritmo mais lento, àquela altura favorável ao seu Palmeiras, que saiu vencendo por 2 a 0, dois gols de César, o César Maluco. Riva, do seu lado, metia bolas compridas de trivela para a corrida do centroavante Mirandinha ou do ponta-direita, um certo Lindóia.
Lindóia, eu disse? Não me lembrava desse jogador. E nem de Natal, que o substituiu no segundo tempo. Também não me recordava de Tião, que fez um dos gols decisivos do jogo, igualando-o em 3 a 3. Perto do final, Mirandinha marcou o quarto, decretando a vitória do Corinthians por 4 a 3. Que jogaço!
Muita coisa mudou desde então. A charanga da torcida palmeirense, que tocava Periquitinho Verde e Touradas em Madri, é coisa do passado, assim como pontas autênticos como aquele Lindóia. Onde foram parar Lindóia, Tião, Natal, jogadores de que ninguém se lembra? Já outros personagens em campo naquela tarde passaram à história como dos melhores de todos os tempos, como Ademir da Guia, Rivellino, Luiz Pereira, Leão.

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