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Socorro, o piloto sumiu!

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h13

Você gostaria que despedissem o comandante enquanto o avião está no ar? É mais ou menos o que está fazendo o Santos Futebol Clube ao mandar embora Adilson Batista na véspera do segundo – e decisivo – jogo pela Copa Libertadores da América, amanhã, contra o Cerro Portenho.
Não digo que não vá dar certo. Futebol não é matemática. Talvez, sob comando do interino Marcelo Martelotte, o time reencontre o apetite perdido nos últimos jogos. Além do mais, é verdade que Adilson vinha pedindo que algo desse tipo lhe acontecesse. Tem escalado mal a equipe, deixando no banco jogadores que vinham jogando muito bem, como Maikon Leite e Zé Eduardo. Adilson, que também foi rapidamente dispensado do Corinthians, se orgulha de ser dono de uma cabeça inventiva. Não se acomoda. Gosta de mexer, mesmo quando não precisa. Esse temperamento irrequieto nem sempre conduz a bons resultados. Além disso, apesar da fama de treinador ofensivo, Adilson vinha sofrendo de um inexplicável conservadorismo na armação da equipe do Santos. Essa soma de fatores o desgastou.
Com tudo isso, talvez tenha sido precipitado demiti-lo assim, de supetão, no calor de um mau resultado – o empate, na Vila, contra o modesto São Bernardo. Tão precipitado que a própria direção santista emite sinais de incerteza sobre o acerto da medida. Tentou ontem contratar Abel Braga – velho sonho de consumo – e já ouviu mais um não. Agora precisa vasculhar o mercado em busca de um treinador de primeira linha. Onde encontrá-lo? Não parece tarefa das mais fáceis. Estão todos empregados, no Brasil, ou no exterior.
Além do mais, o jovem elenco santista não dá mostras de ser o mais dócil do mundo para se lidar. Ano passado já houve o problema entre Neymar e Dorival Jr., que acabou demitido quando vinha fazendo excelente trabalho. Para quem não lembra, Dorival bateu de frente com o atacante, deu-lhe castigo e depois quis estender a punição ao jogo contra o Corinthians; e então caiu. Teve sua parcela de culpa. Foi teimoso e sofreu uma crise aguda de autoridade. Mas a culpa maior foi dos outros. O problema poderia ter sido contornado com alguma diplomacia básica, conversa e inteligência, mas apelou-se para a “solução” arbitrária de sempre: cortar o técnico.
O Santos, e os outros clubes do futebol brasileiro, não conseguem pensar a médio e, muito menos, a longo prazo. Não sabem direito o que querem. Se havia convicção de que Adilson era o técnico certo para substituir Dorival, por que trocá-lo ao primeiro sinal de queda de produção do time? Se não havia essa convicção, por que foi contratado? Perguntas. A gente tenta falar bem de alguns dirigentes, mas, francamente, eles não colaboram.
Assim como não colabora para a percepção do futebol como atividade séria toda essa guerra envolvendo o Clube dos 13, a CBF e os interesses da televisão. Tentei me colocar a par do assunto porque, afinal de contas, ele é vital para o futuro do futebol brasileiro. Não é possível que, no mundo da competição globalizada, da qual o futebol é ponta de lança, continue a haver tamanha disparidade entre o que paga a TV europeia por seus campeonatos e o que paga a TV brasileira pelos nossos. Enquanto houver esse desequilíbrio, não existe solução à vista para a normalização dos mercados. Quer dizer, a Europa continuará sendo compradora, e o Brasil, vendedor de atletas.
No entanto, qualquer tentativa de compreensão do assunto esbarra num cipoal de interesses conflitantes e pouco claros. Nenhum dos protagonistas diz exatamente o que está pensando, mesmo porque a franqueza não parece ser a melhor política para mesas de negócios ou de pôquer. O pano de fundo – e que realmente interessa – é a questão da disputa pelos direitos de transmissão. Sem concorrência limpa entre as emissoras, o preço não sobe para os clubes. E nós, espectadores e torcedores, continuaremos na mão de um monopólio. A livre concorrência é o dogma maior nas tábuas da lei do capitalismo. Mas, no capitalismo à brasileira, nem sempre é praticado.

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