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Somos bairristas assumidos?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h31

5/6/2007

Estou passando uns dias em Fortaleza e leio os jornais locais. Estão lá, na
coluna de Alan Neto, do jornal O Povo, palavras que peço licença para
transcrever: “Qual é a competição da qual participam Fortaleza e Ceará?
Resposta: Segunda Divisão. Qual é o campeonato que ao futebol cearense mais
interessa atualmente? Resposta: Segunda Divisão. Se é assim, fácil deduzir
que é para ela que todas as minhas atenções estão voltadas. O Brasileirão
fica, desta maneira, relegado a segundo plano. Por acaso, Ceará e Fortaleza
estão lá?”
Não tenho o prazer de conhecer o colunista, que se diz bairrista assumido.
Concordo com ele. Pelo menos em matéria de futebol, somos todos bairristas,
assumidos ou não. E, se não somos assumidos, somos enrustidos, porque bem
deveríamos sair do armário e confessar que, neste mundo global da bola, o
que nos interessa mesmo é o que se passa no fundo do nosso quintal. Desde, é
evidente, que nos interessemos pelo nosso quintal, como acontece aqui em
Fortaleza, cidade que ama seus times de futebol a ponto de chamar o embate
entre os dois de “clássico-rei”. Ele acontece nesta sexta e, se puder, não
vou deixar de comparecer ao Castelão.
Podemos ter até interesse teórico no que acontece nos campeonatos europeus,
podemos assistir e até achar graça na aura hollywoodiana das ligas, da Copa
dos Campeões e da Eurocopa, torneios que me fazem sempre lembrar, pelo tom
grandiloqüente, as cerimônias de entrega do Oscar. Podemos assistir a tudo
isso, mas o nosso coração está mesmo lá? Obviamente não. Embora parte da
mídia insista em nos enfiar goela abaixo toda aquela parafernália de luxo,
pompa e circunstância, ela simplesmente não nos diz respeito. São imagens de
outro planeta, de um universo paralelo.
Assim, para quem é de São Paulo e do Rio Grande do Sul não existe nada no
mundo da bola mais importante do que o jogo da volta entre Santos e Grêmio,
amanhã na Vila Belmiro. Interessa apenas aos torcedores desses dois clubes?
Que nada: palmeirenses, corintianos e são-paulinos são gremistas desde
pequenininhos e sabem de cor o hino composto pelo grande Lupicínio
Rodrigues: “Até a pé nós iremos, etc.” Por outro lado, o Santos ganha o
reforço espiritual da torcida colorada que, mentalmente, deve entoar, lá no
Sul, o Leão do Mar, hino não-oficial do Peixe, adotado pela galera.
Ganhe quem ganhar, acho que será outro jogaço, daqueles capazes de
substituir teste ergométrico como avaliação cardiológica. O Grêmio sai com
vantagem, mas não conheço um único torcedor do Santos que considere a virada
impossível. O que dizer antes desse jogo? Nada, a não ser que pode se
transformar num daqueles clássicos brasileiros inesquecíveis, para entrar
nas antologias das rivalidades regionais.
O mesmo se pode falar de Figueirense e Flu, que disputam a Copa do Brasil em
Florianópolis. Acho que o Figueira nunca contou com torcida tão grande na
vida, pois toda a galera flamenguista estará com ele, somada aos
botafoguenses e vascaínos. E a turma do Avaí nunca foi tão pó-de-arroz na
vida.
Disputas regionais acirradas nos devolvem nosso rosto e amenizam, ainda que
parcialmente, a pasteurização de um mundo regido quase que exclusivamente
pelo poder da grana. São uma espécie de vacina contra a macdonaldização do
futebol.
Ah, e por falar nisso, hoje à tarde tem amistoso da seleção “brasileira”.

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