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Tempo de desabafo *

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2014 | 09h06

O campeonato vai chegando ao fim e entramos na fase dos desabafos. Aquilo que estava preso no gogó é solto, para alívio psicológico de quem fala. Este fim de semana dois centroavantes gastaram o verbo: Fred, do Fluminense, e Leandro Damião, do Santos. Além do técnico Luiz Felipe Scolari, que garantiu a todos levar ótimas lembranças de 2014.

De todos, o mais explosivo foi Fred. Depois de ser vaiado por parte da torcida, trombeteou que está há 20 meses sem receber os direitos de imagem e não havia se queixado para ninguém. Agora abria o jogo. Mais: disse que oito jogadores sairiam do Fluminense e não sabia se os garotos da base seriam capazes de segurar o rojão.

Outro que respirou aliviado foi Leandro Damião, a cara contratação do Santos (R$ 42 milhões), que nunca convenceu em campo. Desacreditado diante da torcida, fez os dois gols que rebaixaram o Botafogo e declarou-se injustiçado por muitas das críticas que recebeu – embora admita que nem tudo saiu como pensava ao longo da temporada.

Melhor ainda foi Luiz Felipe Scolari que, ao perder domingo do Bahia, via também sumir a chance de levar o Grêmio à Libertadores de 2015. Disse que se sentia agradecido por ter participado de três Copas do Mundo e também de ter sido recebido no Grêmio, onde, acredita, realizou bom trabalho.

O futebol é uma bênção, já disse alguém. De fato, permite a muitos fazer fama e fortuna que por outros caminhos jamais alcançariam. Há algo de belo nisso. O historiador inglês Eric Hobsbawm disse uma vez que só havia duas formas de ascensão social para os negros nos Estados Unidos (ele fala isso entre os anos 1950-1960): a música e o esporte. Os músicos e cantores, os grandes pugilistas, esses várias vezes se alçavam de uma vida de miséria e obtinham fama, dinheiro e trânsito por classes sociais “superiores”. Eram os casos, por exemplo, do boxeador Sonny Liston ou do saxofonista Charles Parker.

Mas o futebol, para voltar a ele, não apenas permite essa ascensão rápida, a possibilidade de fazer fortuna para várias gerações de uma mesma família, mas também permite dar a famosa volta por cima em caso de desempenho abaixo do esperado. Daí os compreensíveis desabafos de Fred, Damião e Scolari. Os três foram muito questionados. Os três encontraram, no desfecho do ano, que é sempre como o fecho de uma história, motivos para redenção.

Claro que outros podem ter opiniões diferentes. Tanto Fred como Felipão ficaram marcados pelo vexame do Brasil na Copa do Mundo. Ora, futebol é esporte coletivo. Claro que as responsabilidades se dividem entre os outros jogadores e também os outros membros da comissão técnica, sem falar nos dirigentes. Maior o cargo, maior a responsabilidade. Sobre Fred recaíam as esperanças de gol. Afinal, não era o artilheiro, o matador? Nada fez. Já Felipão será, para toda a eternidade, o comandante dos 7 a 1. Por que tentar apagar essa marca histórica? Ela é indelével. Fica, no futebol brasileiro, como tatuagem. Ou melhor, como cicatriz. Ignorar esse fato não faz o estigma desaparecer. Assim como Fred, mesmo sendo artilheiro do Brasileirão, não poderá escapar ao fato de haver falhado na Copa e com seu time, que termina sem qualquer feito digno de nota.

Podemos achar que é humano Damião agarrar-se, como náufrago, aos dois gols que fez na penúltima partida do Santos. E os outros jogos todos, quando havia ainda um campeonato em aberto pela frente, a possibilidade de avançar na Copa do Brasil e classificar-se para a Libertadores? Ele não foi o único a falhar. Mas, entre os jogadores, era o mais cobrado justamente por ser o mais caro, aquele de quem mais se esperava. É assim mesmo. Quem ganha mais, quem está (ou se julga) no topo, quem é ou se considera o melhor em determinada atividade, também tem maiores responsabilidades. São cobrados na mesma medida da expectativa que criam.

* Coluna publicada na versão impressa do Caderno de Esportes do Estadão

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