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Times de porcelana

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h04

Então agora é assim? O Palmeiras, em crise com a demissão de Tite, vai lá em
Presidente Prudente e bate no líder São Paulo? O Corinthians, meio
desacreditado, visita o Beira-Rio, empata com o Inter, campeão das Américas,
e por pouco não ganha? O Santos, de ataque tão fraquinho que até dá dó, pega
um Flamengo embalado e mete logo três que é para não deixar dúvidas? E o
pior (ou melhor, dependendo do ponto de vista): o novo xodó da mídia, o
Grêmio, com a melhor campanha do returno no currículo, vai ao Serra Dourada
e toma uma biaba antológica do Goiás? O que é isso? E para finalizar esse
parágrafo cheio de interrogações: soltaram de vez as zebras? Não existe mais
lógica no futebol?
Claro, se você for analisar meio a frio, nenhum dos resultados acima é
totalmente estapafúrdio. Muitas vezes um time perde o técnico e começa a
jogar como nunca (pena que isso só dure pouco tempo). Então, a vitória do
Palmeiras pode ser justificada pela garra, pela vontade de fazer uma
homenagem ao treinador demitido, agradar o novo, etc. Razões não faltam para
explicar um resultado, depois que o jogo acabou. Falta apenas a boa lógica
futebolística, aquela que ensina que, em tese, o time do São Paulo é muito
melhor e deveria vencer. Já o Santos pode ter o ataque tão limitado como se
queira, mas, no todo, não é tão fraco assim a ponto de se assustar com o
Flamengo, e jogando na Vila, ainda por cima. Só que esse mesmo Santos um dia
goleia o Palmeiras, no outro perde do Vasco, no seguinte empata com o
Fluminense…e sempre jogando em casa.Vá entender. Já o Grêmio parece que
viciou em placar de quatro: goleou a Ponte Preta e o Botafogo por 4 x 0 e
agora vê-se tosquiado em Goiás pelo mesmo placar.
Parece que os clubes brasileiros andam sofrendo de uma daquelas síndromes
psiquiátricas em que o sujeito se sente eufórico num dia e deprimido no
outro. Num dia goleiam, no outro caem de quatro, sem transição. Não se
encontra hoje, no mercado, um único time forte, equilibrado, constante, como
eram, faz pouco tempo, Internacional e São Paulo quando decidiram a Taça
Libertadores da América em dois belos jogos.
E por que aqueles dois jogos foram os melhores deste ano? Porque havia em
campo dois rivais de nível, muito iguais, jogando ambos um futebol bastante
consistente. Eram times fortes na marcação, no meio de campo e no ataque.
Onde estão? Se perderam pelo meio do caminho. Nunca é demais lembrar que o
Inter se defez de quatro jogadores fundamentais – Rafael Sobis, Tinga, Jorge
Wagner e Bolívar. O São Paulo perdeu “apenas” dois, Lugano e Ricardo
Oliveira, mas o tricolor parece estar passando por uma fase de “fadiga do
material” que, se não for administrada, poderá colocar em risco sua grande
vantagem na liderança do campeonato. Ainda tem gordura para queimar, mas, se
continuar vacilando, sei não.
Enfim, por motivos diversos, os times estão sempre se desfazendo, frágeis
como se fossem feitos de porcelana. Uns, como o Santos, porque estão sempre
sendo montados (como diz o seu treinador) sem jamais ficarem prontos.
Outros, como São Paulo e Inter, porque são vítimas do próprio sucesso;
aparecem na mídia como vencedores e o “mercado” faz o resto do trabalho.
Outros vivem imersos em crises políticas intermináveis, como Corinthians e
Palmeiras. E vai por aí.
Com tanta fragilidade, não é à toa que o campeonato pareça tão embolado e
indefinido. Podemos prever uma reta final emocionante, mas não pelo melhor
dos motivos que seria o equilíbrio entre times fortes e competitivos, mas
pelo pior deles: a instabilidade do sistema, em seu conjunto.

26/9/2006

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