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Tolerância Zero

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 23h16

Você, que gosta de futebol, já deve ter visto essas imagens umas dez vezes,
no mínimo. A torcida imensa, em silêncio, paralisada; a moça chorando, com o
olhar perdido, como se não acreditasse no que via; pessoas ao fundo, saindo
devagar do estádio. São as cenas da pior derrota da história do futebol
brasileiro, a perda da Copa do Mundo de 1950 para o Uruguai. Bastava o
empate. O Brasil abriu o placar com Friaça. Schiaffino e Gigghia viraram
para o Uruguai. Fim de história.
O que aconteceria hoje, diante de derrota tão fulminante? Tocariam fogo no
Maracanã, linchariam os jogadores e o Rio de Janeiro seria saqueado? Não
sei, mas, diante do que aconteceu no jogo entre Corinthians e River Plate,
na quinta-feira, posso me permitir pensar que o futebol virou atividade de
alto risco. É verdade, havia umas 30 mil pessoas no Pacaembu e os
baderneiros não passavam de 200 ou 300, talvez um pouco mais, ou menos.
Mesmo assim, fizeram um estrago danado e não apenas em termos materiais. O
futebol, como um todo, sai prejudicado por acontecimentos como esse.
O que se passou entre 1950 e agora? Por que a tolerância à frustração de uma
derrota tornou-se tão baixa? Por que num caso se consegue administrar a dor
de maneira civilizada e em outro ela vira agressão? Acho que são essas as
questões que devemos tentar responder se quisermos entender alguma coisa do
que está acontecendo nos estádios. E, por extensão, no resto da sociedade,
já que o futebol é sempre reflexo de alguma coisa mais ampla do que ele.
O fato visível é que uma parte dos torcedores passou a se comportar como
criança birrenta, que grita e bate o pé quando não tem seus desejos
atendidos de imediato. Inútil dizer que essas “crianças mentais” podem se
tornar extremamente perigosas quando vêem suas exigências frustradas. A
sociedade precisa se defender delas, não há outro jeito. Mas, ao mesmo
tempo, precisamos compreender por que elas existem. Confiar apenas na
repressão me parece ilusório. E pouco inteligente.
Qualquer pessoa com a cabeça no lugar sabe que um grande time se constrói
com bons jogadores, equipe técnica competente…e tempo. O que o Corinthians
precisa? Pressão em cima dos jogadores? Não. Precisa de trabalho a longo
prazo. Dois, três anos, sem ficar trocando de treinador a toda hora, sem
jogadores entrando e saindo a cada mês. E é isso mesmo que Palmeiras,
Santos, Flamengo ou qualquer outro time precisa. Tempo e tranqüilidade para
crescer.
Mas, será que, em nossa época frenética, um clube brasileiro, qualquer que
seja ele, dispõe desse tempo para construir um time? Não. Existe um
desespero crescente por resultados rápidos – tanto por parte da torcida
quanto das diretorias e dos próprios jogadores. E, por que não dizer?,
também por parte da mídia. Tudo é para ontem. Se o time perde dois jogos
seguidos, o técnico cai. O jogador jovem, hoje saudado como o novo Zico,
amanhã vira um perna-de-pau se negar fogo em duas ou três partidas. O
boleiro promissor quer sair imediatamente para a Europa ou qualquer outra
parte do mundo porque o empresário dele o convenceu de que está perdendo
tempo no Brasil. Enfim, criou-se uma cultura do imediatismo, no futebol como
no resto. Uma cultura infantil, que gera muita frustração. E, como se sabe,
frustração leva à agressividade, em especial naqueles que são
psicologicamente mais frágeis.
Infelizmente, acho que enquanto estivermos mergulhados até o pescoço nessa
cultura do imediato, sem nenhum senso crítico em relação a ela, cenas como
as de quinta-feira tendem a se repetir. Vivemos no mundo do eterno presente,
sem passado (que é coisa de velho) e sem futuro (que é abstrato, logo não
existe). Tudo isso gera estresse, perda de lucidez, frustração. E muita
agressividade. O futebol não seria exceção ao resto.

9/5/2006

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