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Torcer e secar na reta final

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h10

24/10/2006

Com quem o São Paulo joga agora? Passou a ser esta a pergunta de todos os
secadores do Brasil depois que o tricolor botou a proa na direção do título.
“Joga com o Figueirense, lá, e não vai ter vida fácil”, diz um amigo
santista aqui no jornal, cheio de esperança. E faz contas. “Perde lá em
Florianópolis, depois tem um jogo de seis pontos com a gente e pronto:
estamos chegando em cima deles.”
Não tenho tanto contato com o pessoal do Grêmio e do Inter, mas imagino que
alimentem por lá suas matemáticas particulares, pouco diferentes da do nosso
amigo santista. Enfim, o futebol, como a política e a vida em geral, é, em
boa parte, movido pela esperança. E nem sempre a esperança tem lógica,
embora, no caso do campeonato, se possa dizer que ainda dispomos, de fato,
de 24 pontos em jogo. E assim, na teoria, tudo pode suceder. Tudo mesmo,
pois essa é a natureza da tal “caixinha de surpresas”, como diziam os nossos
antecessores.
Mas, para além da lógica, e da matemática da esperança, existe o rigor do
bom senso. E este recomenda reconhecer que dificilmente o São Paulo se
afastará do rumo. Não apenas pela vantagem acumulada (afinal, são sete
pontos sobre o segundo colocado), mas pela maneira convincente como voltou a
jogar.
Não que o tricolor apresente um futebol de sonhos, de dar água na boca,
aquele futebol iluminado que apresentaram, digamos, o Santos de 2002 ou o
Cruzeiro de 2003, para não incorrermos no pecado (hoje mortal) da nostalgia.
Nada disso. O São Paulo joga um bom feijão com arroz. Um futebol
consistente, de “sustância”, que lhe permite ir ao Sul e arrancar um empate
do Grêmio com o Olímpico lotado torcendo contra. Tem, não por acaso, uma
administração também consistente, que lhe possibilita repor jogadores com
rapidez, agilidade fundamental nesta época de vertiginosa rotatividade de
atletas.
Então, o que aconteceu? O São Paulo deu uma balançada, mas já se reaprumou.
Por essa característica, pela solidez, e não apenas pela gordura acumulada,
é que julgo a fatura já decidida para o tricolor. A não ser que entre em
campo aquele personagem que Nelson Rodrigues chamava de Sobrenatural de
Almeida.
Mas, mesmo admitindo que o Campeonato Brasileiro de 2006 já tenha vencedor,
nem por isso ele perdeu a sua graça. Mesmo porque alguns jogos têm sido
muito interessantes, já que muito disputados. Um bom exemplo foi o próprio
empate do São Paulo com o Grêmio, partida cheia de alternativas táticas e de
variações de predomínio em campo. Ora, um jogo no qual sai um gol antes do
primeiro minuto já tem tudo para ser excepcional porque destrói expectativas
e planejamentos. O Grêmio sentiu o golpe, mas conseguiu se reequilibrar e
empatou. Não teve forças para vencer, mas o mérito é também da marcação
firme do São Paulo.
E o campeonato tem muita lenha ainda para queimar. Pense só no jogaço que
poderá ser este Corinthians x Palmeiras, amanhã à noite. A maior rivalidade
da cidade. Dois gigantes de torcidas enormes e tradições suntuosas. Mas dois
gigantes feridos, separados por meros dois pontos, e ainda rondando a zona
do rebaixamento.
Bom, nenhum dos dois deve cair porque Fluminense e Ponte Preta estão fazendo
a sua parte com rara competência. Mesmo assim, será um jogo escaldado por
uma rivalidade ancestral e apimentado por um presente de penúria. E o
vencedor (se houver) terá dupla recompensa. Além de se distanciar do perigo,
ganha o bônus de afundar o inimigo. Não perco um jogo desses por nada deste
mundo.

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