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Tragédia anunciada

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h13

27/11/2007

A mesma paixão que é a vida do futebol pode também significar drama e morte.
Afinal, não foi o amor pelo Bahia, que sobe à Segunda Divisão, que causou a
tragédia na Fonte Nova? Mas a culpada é a paixão ou a irresponsabilidade de
quem abriu os portões para as comemorações da torcida baiana? Ou de quem
sabia que o estádio não tinha condições para abrigar tamanha multidão? Não
havia um laudo técnico que colocava a Fonte Nova como o mais mal conservado
dos grandes estádios brasileiros? Alguém tomou alguma providência? Não. De
modo bem brasileiro, confiamos que Deus é nosso patrício e nada de mal vai
nos acontecer. Acontece de vez em quando.
Soube que haveria desfile de trios elétricos em Salvador e que tudo foi
cancelado, como deveria ser, aliás. Amigos baianos, os diretores de cinema
Jorge Alfredo e Edgard Navarro, vieram comentar o caso comigo. Ambos
torcedores do Bahia, passaram da euforia à depressão quando souberam da
notícia. O que era festa, virou luto.
Tudo isso precisa ser apurado, providências tomadas e os eventuais culpados,
punidos. Agora, não acredite em quem generaliza o episódio e dele tira a
conclusão que o Brasil não pode receber a Copa de 2014. É explorar de modo
muito fácil o nosso também tradicional complexo de vira-latas e deduzir que
não somos capazes de resolver nossos próprios problemas. Embutidos nesse
tipo de conclusão prematura existem interesses escusos. A começar pelos de
outros países que gostariam de se colocar como alternativas ao Brasil em
2014. Não se pode cair nessa, ingenuamente.
Mas o que não dá mais é brincar com a vida das pessoas.
EMOÇÕES NA RETA FINAL
Nem depois da trepidante rodada do fim de semana se pode dizer que o
Campeonato Brasileiro chegou ao fim. Tem ainda muita coisa pendente – uma
última vaga na Libertadores, a ser disputada entre três clubes, e o
rebaixamento, que também caminha para ser resolvido nos últimos jogos. O
fato é que palmeirenses, cruzeirenses e gremistas estão fazendo mais contas
do que professor de matemática. E o mesmo furor aritmético, por motivos
opostos, tomou conta de torcedores do Corinthians, Goiás e Paraná. Todo
mundo de calculadora na mão.
O torce-e-seca ganhou a galera. Achei graça quando, antes de começarem os
jogos, um amigo e uma amiga, ambos corintianos, vieram conversar comigo.
“Você sabe se o Fábio Costa joga?’’, quis saber um. E a amiga emendou: “Será
que o Maldonado agüenta os 90 minutos?’’ Curiosa “solidariedade’’, de quem
tinha muito interesse próprio no bom desempenho do Santos diante do Paraná.
Engraçada foi a reação de outro amigo, este santista, quando soube do
resultado: “Esse Kléber fica sem marcar um tempão e vai desencantar logo
para beneficiar o Corinthians?’’ Para ele, era preferível “garantir’’ a
queda do rival nessa rodada e deixar a vaga da Libertadores para ser
decidida no último jogo, contra o Fluminense. Assim é o torcedor, ou alguns
deles. E tudo isso faz o encanto do futebol.
O fascínio dos estádios lotados também. Que beleza é a torcida do Flamengo
lotando o Maracanã. Se existe um time que foi carregado no colo pela massa
dos seus torcedores, este foi o Flamengo, em arrancada histórica da zona de
rebaixamento até a conquista de uma das vagas da Libertadores. O mesmo pode
ser dito da torcida do Corinthians, que tem empurrado esse time tão fraco
com a determinação dos fundamentalistas.
Diante de tantas emoções desencontradas ainda existe gente que acha o
campeonato por pontos corridos chato e desinteressante. Não acredite. Também
aí existem interesses escusos.

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