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Tragédia anunciada

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h12

A mesma paixão que é a vida do futebol pode também significar drama e morte. Afinal, não foi o amor pelo Bahia, que sobe à 2ª divisão, que causou a tragédia na Fonte Nova? Mas a culpada é a paixão ou a irresponsabilidade de quem abriu os portões para as comemorações da torcida baiana? Ou de quem sabia que o estádio não tinha condições para abrigar tamanha multidão? Não havia um laudo técnico que colocava a Fonte Nova como o mais mal conservado dos grandes estádios brasileiros? Alguém tomou alguma providência? Não. De modo bem brasileiro, confiamos que Deus é nosso patrício e nada de mal vai nos acontecer. Acontece de vez em quando.
Soube que haveria desfile de trios elétricos em Salvador e que tudo foi cancelado, como deveria ser, aliás. Amigos baianos, os diretores de cinema Jorge Alfredo e Edgard Navarro, vieram comentar o caso comigo. Ambos torcedores do Bahia, passaram da euforia à depressão quando souberam da notícia. O que era festa, virou luto.
Tudo isso precisa ser apurado, providências tomadas e os eventuais culpados, punidos. Agora, não acredite em quem generaliza o episódio e dele tira a conclusão que o Brasil não pode receber a Copa de 2014. É explorar de modo muito fácil o nosso também tradicional complexo de vira-latas e deduzir que não somos capazes de resolver nossos próprios problemas. Embutidos nesse tipo de conclusão prematura existem interesses escusos. A começar pelos de outros países que gostariam de se colocar como alternativas ao Brasil em 2014. Não se pode cair nessa, ingenuamente.
Mas o que não dá mais é brincar com a vida das pessoas.

Emoções na reta final

Nem depois da trepidante rodada do fim de semana se pode dizer que o Campeonato Brasileiro chegou ao fim. Tem ainda muita coisa pendente – uma última vaga na Libertadores, a ser disputada entre três clubes, e o rebaixamento, que também caminha para ser resolvido nos últimos jogos. O fato é que palmeirenses, cruzeirenses e gremistas estão fazendo mais contas do que professor de matemática. E o mesmo furor aritmético, por motivos opostos, tomou conta de torcedores do Corinthians, Goiás e Paraná. Todo mundo de calculadora na mão.
O torce-e-seca tomou conta da galera. Achei graça quando, antes de começarem os jogos, um amigo e uma amiga, ambos corintianos, vieram conversar comigo. “Você sabe se o Fábio Costa joga?”, quis saber um. E a amiga emendou: “Será que o Maldonado agüenta os 90 minutos?” Curiosa “solidariedade”, de quem tinha muito interesse próprio no bom desempenho do Santos diante do Paraná. Engraçada foi a reação de outro amigo, este santista, quando soube do resultado: “Esse Kléber fica sem marcar um tempão e vai desencantar logo para beneficiar o Corinthians?” Para ele, era preferível “garantir” a queda do rival nessa rodada e deixar a vaga da Libertadores para ser decidida no último jogo, contra o Fluminense. Assim é o torcedor, ou alguns deles. E tudo isso faz o encanto do futebol.
O fascínio dos estádios lotados também. Que beleza é a torcida do Flamengo lotando o Maracanã. Se existe um time que foi carregado no colo pela massa dos seus torcedores, este foi o Flamengo, em arrancada histórica da zona de rebaixamento até a conquista de uma das vagas da Libertadores. O mesmo pode ser dito da torcida do Corinthians, que tem empurrado esse time tão fraco com a determinação dos fundamentalistas.
Diante de tantas emoções desencontradas ainda existe gente que acha o campeonato por pontos corridos chato e desinteressante. Não acredite. Também aí existem interesses escusos.

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