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Tristezas não pagam dívidas *

Luiz Zanin Oricchio

21 de outubro de 2014 | 09h58

Amigos, noto uma relação mais amena em relação ao futebol brasileiro. Explico-me. Num primeiro momento houve o 7 a 1. Bem, ninguém precisa mais explicar o que seja. Virou uma sigla. Como o 11 de setembro. Enfim, depois dos 7 a 1 houve uma espécie de sentimento generalizado de apocalipse do futebol brasileiro. Fim dos tempos. Eu mesmo escrevi que o edifício do futebol brasileiro deveria sofrer uma reforma do telhado aos alicerces, passando pelo encanamento e a fiação. Não admitíamos menos que isso.

Como sabemos todos, nada se fez. E o que mais se poderia esperar da dupla Marin-Del Nero? Nada, senão o imobilismo, o imobilismo. Ou melhor, a continuidade dessa política de privatização do bem cultural brasileiro conhecido apenas por futebol.

Assim foram passando os dias e meses. Dunga assumiu, o Campeonato Brasileiro prosseguiu, as trombadas das datas Fifa com as rodadas domésticas continuaram. Tudo na mesma. E, no entanto, sinto um clima de distensão, de “détente”, como se dizia no tempo da Guerra Fria entre as então superpotências Estados Unidos e União Soviética. Esta acabou com o fim de uma delas e a hegemonia da outra. E, no caso muitíssimo mais modesto do futebol brasileiro, parece que vai se acabando por puro cansaço dos envolvidos, ou seja, todos nós. Como se tivéssemos pouca energia para manter as cordas estendidas por muito tempo. É compreensível.

Desse modo, damos de ombros e decidimos que o melhor é tocar a vida adiante e nos adaptarmos ao que temos. Como se todos os que exigissem a revolução, ou mesmo reformas radicais, soubessem, no fundo, que elas não viriam, e estávamos a pregar no deserto.

Mesmo porque, depois dos 7 a 1, a seleção, surrada, humilhada e ofendida, passou a ser comandada por Dunga que, como em sua primeira passagem no cargo, obtém resultados expressivos (conseguiu, pelo menos até a Copa da África do Sul). Quatro vitórias, uma delas por 2 a 0 contra o fantasma da Argentina de Lionel Messi e Di María.

Tudo isso apazigua, amortece, anestesia, porque contra fatos não há argumentos e contra resultados, no futebol, não existe oposição que resista. O placar sempre tem razão. Podemos achar ruim, mas é assim desde que a primeira bola começou a rolar.

Desse modo, jogo após jogo, a seleção vai deixando de ser essa chaga exposta que terminou a Copa do Mundo. Claro, está longe da reabilitação, mas o brasileiro já não parece ter uma sensação de vergonha, ou temor, a cada vez que ela joga. (Cada um com seu padrão de exigência, mas reabilitação completa, para mim, só se fizer uma campanha impecável nas Eliminatórias, for à Rússia em 2018 e ganhar a Copa. Nada menos me satisfaz).

Mesmo aqui, no Campeonato Brasileiro, sentimos certa détente. Os bons jogos reapareceram e mesmo nossos times já não parecem tão fracos como num primeiro momento.

A memória humana, além de seletiva, vai se atenuando com o tempo. Tudo o que era nítido passa a ser envolto em uma espécie de bruma diáfana.

Assim, deixamos de sentir o contraste muito forte entre os jogos que vemos por aqui e aqueles a que assistimos durante a Copa. E, afinal, compará-los seria medir coisas diferentes.

Não dá para somar na mesma coluna times e seleções. E, mesmo que acompanhemos os milionários campeonatos europeus pela TV, sabemos que não se trata da mesma coisa. Sentimos um certo distanciamento em relação a esses clubes, estrangeiros em todo sentido do termo, e que não nos dizem muito respeito. Mesmo que existam brasileiros às pencas lá atuando.

Conformamo-nos com o bom futebol do líder Cruzeiro (que aliás anda minguando) e do São Paulo, as oscilações do Internacional, a monotonia do jogo do Corinthians, a garra do Palmeiras e as revelações de novos Meninos da Vila.

A vida segue adiante e tratamos de aproveitá-la, mesmo porque tristezas não pagam dívidas, como nos ensinavam os antigos.

 * Coluna publicada na versão impressa da seção de Esportes do Estadão 

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