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Ué, já começou?

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 20h27

15/5/2007

Foi com surpresa que me dei conta do início do Campeonato Brasileiro. Pensei
que fosse só problema meu, mas conversei com amigos e constatei a mesma
admiração. Já!?, era o comentário mais freqüente. Claro, todo mundo “sabia”
que iria começar no sábado, mas era a mesma coisa que não saber, porque
ninguém se sentia motivado para o principal campeonato do País. Uma coisa é
saber com a cabeça, mero conhecimento racional. Outra, é “saber” com a
emoção, sentir aquela expectativa positiva por algo que desejamos muito,
aquela espera que faz o tempo passar mais devagar. Não, o Brasileirão chegou
de repente, sem avisar, como uma frente fria ou uma onda de calor em pleno
inverno.
Essa sensação não deveria nos surpreender. Afinal, os campeonatos estaduais
acabaram semana passada e ainda tem gente comemorando título. Ou chorando
título perdido. A Libertadores entrou em sua fase mais aguda, assim como a
Copa do Brasil. Os torneios vão se superpondo, as pessoas não conseguem
reciclar seu emocional de uma hora para outra, para sair de um e
concentrar-se no seguinte. Seria preciso um tempo para se habituar ao novo.
É só o futebol que está desse jeito? Que nada, essa é uma característica da
nossa época: pelo excesso de oferta, não conseguimos aproveitar mais nada
direito, porque nos sentimos sempre empanturrados. Somos submetidos a uma
enxurrada de livros, discos, filmes que não deixam resíduo atrás de si.
Aparecem, ganham uma capa nos segundos cadernos e desaparecem sem deixar
traço, sendo substituídos pelo produto mais novo. Também a máquina da bola
precisa funcionar a todo vapor. Como o futebol tornou-se muito caro, o
capital precisa girar com rapidez para pagar o investimento. Há os
campeonatos locais, mas também a Copa dos Campeões, a da Uefa, as ligas da
Espanha, Alemanha, França, Portugal, Itália. Quem quiser, e tiver TV paga,
assiste a jogo a qualquer hora do dia e da noite. A oferta passou de
generosa a excessiva. Periga provocar overdose no freguês.
Nesse clima de super oferta, uma promoçãozinha não faria mal a ninguém. Por
exemplo, quem é o atual campeão brasileiro, que está pondo seu título em
disputa? O São Paulo, que deu início ao campeonato jogando a portas fechadas
com o Goiás, para cumprir punição do ano passado. Quer maior anticlímax que
esse? O Corinthians chega com um time novo e que não inspira ainda confiança
na torcida. O Flamengo foi campeão no domingo, desclassificado da
Libertadores na quarta e viu-se obrigado a enfrentar o Palmeiras no domingo.
Santos e Grêmio, envolvidos na Libertadores, saíram previsivelmente
goleados. Pouparam jogadores e estão com o espírito em outra parte. E assim
por diante.
Com todos esses problemas, teremos um grande Campeonato Brasileiro assim que
a coisa pegar no breu. O futebol neste País é um caso raro de sobrevivência
na adversidade. Que outro campeonato do mundo pode dizer que tem, pelo
menos, 12 grandes clubes numa disputa de 20 times? Talvez até mais do que
isso, é só fazer as contas: os quatro grandes de São Paulo, os quatro do
Rio, Inter e Grêmio, Atlético Mineiro e Cruzeiro, e ainda os sempre fortes
times do Paraná e os nordestinos com suas apaixonadas torcidas. Aliás, foi
no Recife que o Brasileirão começou para valer, com a bela recepção da
torcida do Sport ao seu time na Ilha do Retiro. Que retribuiu goleando o
dispersivo Santos por 4 a 1. Teremos um grande campeonato. Mas será um
campeonato de qualidade técnica? Aí já são outros 500 e, como até o Lula já
se convenceu de que no Brasil não se pratica mais o melhor futebol do mundo,
é melhor colocar as barbas de molho.

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