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Um clássico (quase) perfeito

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h34

13/3/2007

Um grande jogo é como uma pedra jogada n’água: continua a produzir ondas
mesmo depois de já ter desaparecido. É o caso do clássico de domingo entre
Santos e São Paulo na Vila Belmiro. Um jogo raro. Com todas as nuances de um
embate entre grandes. Domínio de um no primeiro tempo, do outro no segundo.
Grandes jogadas, bonitos gols, bolas na trave, lances polêmicos, erros da
arbitragem que serão discutidos, não digo pelos séculos afora, mas pelo
menos durante os próximos dias.
O que faz de um jogo um clássico não é apenas esse conjunto de qualidades,
mas, a meu ver, o “pathos”, a emoção, a carga de dramaticidade que ganha.
Muitos ingredientes estavam presentes na Vila para que este Santos x São
Paulo alcançasse esse status de jogo especial. E racionalmente não deveria
ser assim: ambos estão praticamente qualificados para as semifinais e este
não é um campeonato de pontos corridos, no qual todos os jogos se equivalem
em pontuação e importância.
Não. Era um tira-teima, uma espécie de aperitivo do que deverão ser as
finais do Campeonato Paulista, a não ser que alguma zebra entre na pista.
São os dois melhores times de São Paulo, possivelmente do Brasil. Têm, em
seu comando, os dois técnicos mais competentes, Luxemburgo, um estrategista,
Muricy, que sabe como nenhum outro fazer de um grupo de jogadores um
conjunto competitivo. Mais: duas torcidas que se tornaram muito rivais, a
partir, talvez das quartas-de-final de 2002, quando o Santos, um time de
crianças que havia se qualificado em oitavo lugar, tirou do caminho o
favorito São Paulo, que terminara a fase de classificação em primeiro.
Essa, a eletricidade que tomava conta da Vila. Estava na disposição de cada
um daqueles jogadores em campo, que odiavam a simples idéia de perder para o
adversário. Convenhamos: futebol só tem graça desse jeito. Um jogo se ganha
com a alma, dizia Nelson Rodrigues, e não tenho nenhum motivo para supor que
estivesse errado.
Essa vontade de ganhar, sem a qual não há espetáculo, gera subprodutos
indesejáveis. Não, não se pode exigir de um campo de futebol os punhos de
renda de uma recepção no Itamaraty. Mas jogos acirrados assim ficam a um fio
de se transformarem em batalha física. E o futebol é, como o xadrez, a
imitação de uma guerra e não a guerra em si mesma. Por isso não se deve
tolerar que a dedicação dos jogadores ultrapasse a fronteira da “raça” e se
converta em briga de rua. Como delimitar essa fronteira? Não me parece que
tenha sido atravessada domingo, embora tenha sido tocada. Houve jogo viril,
e de parte a parte e não de um lado só como alegam Souza e Leandro, dois
conhecidos congregados marianos.
Mas um aspecto de que não gostei mesmo foram das agressões à bandeirinha Ana
Paula Oliveira. Certo, ela errou de maneira canhestra. Mas pagar esse erro
tendo de ouvir milhares de pessoas gritando em coro uma palavra de quatro
letras me parece um despropósito. Há um consenso na crônica de que a torcida
tem direito de se manifestar como quiser, menos com agressões físicas. E as
agressões simbólicas, não contam? Afinal, quando racistas europeus mostram
bananas para jogadores negros estão fazendo algo semelhante ao torcedor
brasileiro que insulta uma mulher porque ela se equivocou num impedimento. E
o pior é que vi várias mulheres no estádio usando a mesma palavra que seus
companheiros para xingar a pobre da bandeirinha. Que raio de feminismo é esse?

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