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Um dia santo

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 13h45

Chego de viagem e encontro um bilhete da moça que faz a arrumação em casa.
Nesta terça-feira não pode vir “por causa do jogo do Brasil”. Fico feliz.
Afinal, como ela diz, é dia de jogo do Brasil. E, o bilhete me lembra, em
dia de jogo do Brasil não se trabalha. É feriado. Uma celebração. Um dia
santo, apesar de tudo.
Não sei se a moça curte mesmo futebol ou se é uma dessas torcedoras
sazonais, que saem das catacumbas a cada quatro anos e para elas voltam
quando se encerra a Copa. Não sei. Talvez não venha apenas porque mora longe
e a condução estará mais difícil que de hábito. Mas imagino o melhor, que
deva fazer uma comida especial para esperar o jogo, que reúna a família e os
amigos; que ajude na decoração da rua, que vista uma camisa amarela, mesmo
que não saiba dizer de cor a escalação do time nacional e muito menos a do
adversário, formada por nomes arrevesados.
Pouco importa. Na era do marketing esportivo, dos craques expatriados, da
hiper publicidade, da explosão consumista, da badalação vaidosa dos famosos,
do deslumbramento dos aproveitadores – mesmo nesse tempo ruim o mito da
seleção ainda subsiste e pertence a todos. À moça, a mim, a você. É, apesar
de tudo, o Brasil em campo, os jogadores que nos representam, que jogam por
nós, em nosso nome.
Hoje, nenhum deles faz parte dos nossos pobres times aqui de casa. Amanhã,
quem sabe já nas próximas copas, talvez nem mesmo os conheceremos direito.
Terão saído do País ainda crianças imberbes e feito carreira desde o começo
naqueles milionários clubes estrangeiros. Lá fora, talvez lhes tenham
acenado com um passaporte mais valioso para que pudessem defender o país de
Primeiro Mundo onde trabalham, e acabaram optando por continuar brasileiros
para vestir a “amarelinha” – que afinal tornou-se uma poderosa e rentável
grife global. Mas isso é para depois.
E pouco importa, de novo. Quando entrarem em campo, hoje ou no futuro, esses
rapazes, já tão pouco parecidos conosco, serão, em todo caso, “o Brasil”.
Essa é a magia da seleção, a força do milagre que se repete a cada quatro
anos e que não veio do nada, mas de uma larga tradição da prática desse jogo
entre nós. Somos todos, e não apenas os jogadores, personagens dessa
história que começou lá atrás, em 1930, quando o Brasil participou de sua
primeira Copa, no vizinho Uruguai. Ou, se quiserem, que teve início ainda
antes, quando um paulistano de ascendência inglesa, Charles Miller, aqui
chegou com uniformes, duas bolas e um livro de regras, nos idos de 1894. O
“football”, que veio pela elite, logo encantou o povo e por ele foi
apropriado. Pertence ainda a todos nós, embora às vezes pareça o contrário,
que tenha se tornado privativo da Nike, da Ambev, da CBF, do Ricardo
Teixeira, do Zagallo, do Parreira.
Por esse motivo, por mais que a seleção pareça até submersa sob essa
avalanche de marketing e desinformação publicitária, de estrelismos e
destemperos, seu doce mistério ainda subsiste. Quero vivê-lo mais vezes,
porque a experiência da seleção na Copa é sensorial, tem cheiros e ruídos
que nos acompanham por toda a vida. Ruas quase vazias, buzinas distantes, o
cheiro de pólvora dos rojões, um certo nervosismo, um certo frisson, uma
ansiedade, o nó na garganta, o suor na palma da mão que precede o início da
partida, o hino.
O dia em que o Brasil joga é um dia muito especial. Ocupa lugar de honra na
nossa memória e na nossa história. E isso ninguém nos tira.

13/6/2006

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