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Um jogo e três histórias

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h52

Algo de muito especial aconteceu domingo no velho estádio da Vila Belmiro.
Não apenas o jogo – um dos melhores e mais emocionantes do campeonato – mas
um curioso encontro de histórias que se cruzam.
Em seu camarote estava Pelé, aquele que realizou uma história completa no
Santos Futebol Clube. Chegou menino, com 15 anos, participou de 1114 jogos,
fez 1091 gols, ganhou todos os títulos possíveis e imagináveis com a camisa
branca, até sair, com 33 anos.
Em campo, brilhava Giovanni, uma história que se reatava depois de rompida
com a ida para o Barcelona. Com 33 anos, mesma idade do Rei ao deixar o
Santos, Giovanni volta à sua casa, nove anos depois, exibindo um futebol
refinado, inteligente, eficaz. Foi o astro do jogo.
Jogando ao seu lado, Robinho, a história truncada do menino que surge em
2002, torna-se ídolo da torcida e vai-se embora, prematuramente, com 21
anos. No domingo arrastava-se em campo, um fantasma do que já foi. O idiotas
da objetividade dirão que foi o mês parado em greve de bola, a falta de
forma física e ritmo de jogo – todas essas boas e válidas razões.
Verdadeiras, em parte. O que se via em campo, no duro, era um Robinho
estranho a si mesmo, pouco à vontade numa casa que não é mais sua, diante de
uma platéia que, se não o hostilizou abertamente, pelo menos o ignorou, o
que talvez tenha doído mais do que uma vaia.
Essas histórias se entrelaçam e se comentam de outras formas. A de Pelé, em
número de gols, jogos e títulos é esmagadora. Consagrou para sempre a camisa
10. Giovanni até agora não ganhou nenhum título pelo Santos. Nos dois anos
(1994-1996) em que ficou no Peixe fez a torcida esquecer um pouco a saudade
que tinha de um camisa 10 de estatura real. Volta agora, talvez para
escrever o resto daquela história interrompida. Robinho venceu dois
Campeonatos Brasileiros e nunca quis vestir a 10 – achava que a 7 lhe dava
mais sorte. Passada a mágoa, a torcida irá recolocar no museu afetivo alguns
dos seus jogos mágicos, como a finalíssima do Brasileiro de 2002 contra o
Corinthians. Até onde iria sua história no Santos se não tivesse resolvido
cortá-la? Responder a isso é o mesmo que especular sobre o que teriam sido
os poemas de maturidade de Rimbaud.
Como disse, Santos 4 Corinthians 2 foi um dos mais emocionantes e melhores
jogos deste campeonato, tantas vezes acusado, e com justiça, de pouco
técnico e nivelado por baixo. Mas, de vez em quando, reaparece o grande jogo
de bola que ainda subsiste neste país, apesar da espoliação futebolística a
que somos submetidos. Por algum tempo, pelo menos, o Brasil volta a ser o
país do futebol, como nos recentes Corinthians e Cruzeiro e neste
inesquecível Santos e Corinthians. PS: Não é coincidência que o Corinthians
figure nos dois melhores jogos. Cheio de defeitos, em especial na defesa, o
Timão é a equipe mais vibrante do campeonato.
A FORÇA DA GRANA
Kia Joorabchian, da MSI, visitou o jornal na semana passada. Simpático,
fluente, diz coisas que gostamos de ouvir: “É impossível perder dinheiro com
o futebol brasileiro”. Ou: “Se eu fosse Marcelo Teixeira não venderia
Robinho, porque não se vende a estrela da companhia”. Kia explica que
precisa de jogadores de nome, como Tevez, porque eles valorizam os que jogam
ao seu lado. Valorizam a camisa, que consegue mais do patrocinador. Com isso
pagam-se melhores salários, e assim o mundo gira e a Lusitana roda. Kia
parte do princípio de que quanto mais dinheiro circula em uma atividade,
melhor ela é. E então lembro de Hollywood, que nunca foi tão rica como
agora, quando os estúdios saíram da mão de gente ligada ao cinema e passaram
para a dos financistas. Estão bilionários. Mas veja só os filmes que fazem.
Têm de tudo, de grandes astros a efeitos especiais. Só falta alma. Você dirá
que a alma não pode ser comprada, vendida ou medida. Mas todo mundo percebe
quando ela não está lá. O futebol vai por aí?

2/8/2005

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