As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Uma crônica das saudades antecipadas

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 23h08

Chega essa época do ano e já vou sentindo saudades antecipadas do futebol brasileiro. Como levar a vida sem comentar com os amigos a mais recente rodada do Campeonato Brasileiro? Sem gozar com a cara dos colegas de trabalho, ou ser por eles gozado quando é nosso time que entra em fria? Pois é, meus amigos, nessa época do ano me volta à mente a mais absoluta e cristalina das verdades (eu, que descreio delas todas, ou quase): o futebol é um dos mais poderosos cimentos da socialiabilidade que existem no Brasil. E, também, claro, nos países em que é esporte dominante. Alguma coisa nesse jogo, inventado, que eu saiba, em tempos ancestrais e sistematizado pelos ingleses, produz um milagre de comunicação numa sociedade dividida. Diante dele, o dono da empresa e o ascensorista são iguais. O intelectual conversa com o analfabeto e a grã-fina discute com a criada. O futebol é um esperanto social. Por isso nos faz tanta falta.
E, por isso também, só serve como cimento social e elo de aproximação entre diferentes quando se trata do futebol jogado no país. Ou você já viu uma discussão apaixonada entre um torcedor do Barcelona e outro do Real Madrid? Ou entre um “tifoso” da Roma e um da Lazio? Eu já vi. Mas foi na Espanha, ou na Itália. Mesmo que esses times internacionais tenham hoje seus admiradores no mundo todo, e também no Brasil, eles não chegam a ser torcedores. Torcemos pelo que está próximo, ao alcance da nossa mão, para falar de maneira metafórica. Nos identificamos com o que acontece no nosso quintal, por mais globalizada que seja (ou pensamos ser) a nossa cabeça.
De modo que, ao se aproximar o fim da temporada vai me dando um sentimento meio assim de orfandade. Não adianta pensar que terei outras atrações futebolísticas para preencher o tempo, cada vez mais escasso. O que me falta mesmo é o futebol nacional. Em especial, o Campeonato Brasileiro, do qual se pode dizer o que for, criticar-lhe a organização e o nível técnico, mas que tem sido sempre emocionante, tanto no andar de cima como no de baixo.
Sim, porque me parece muito improvável que algum time venha a se sagrar campeão por antecipação. Assim como acho muito difícil que se definam antes da última rodada todos os rebaixados. Tudo deve ficar para o final. Para aquela famosa rodada pinga-fogo, que você acompanha com o coração numa mão e o controle remoto na outra, pulando de um canal em canal, tentando ver todos os jogos ao mesmo tempo e acabando por não assistir direito a nenhum deles.
É claro que o Fluminense parece hoje o candidato mais sólido ao título. Não apenas por que esteja em vantagem na tabela (tem três pontos a mais do que o Corinthians e a mesma pontuação do Cruzeiro, mas saldo de gols superior), mas porque voltou a jogar bem. E, em especial, porque seu principal jogador, Conca, começou a funcionar de novo. Mas também é claro que a vantagem é mínima e pode se transformar em fumaça de uma hora para outra. Em outras palavras, o Flu, de Muricy Ramalho, deve se concentrar como uma serpente que tenta hipnotizar passarinho para não deixar a taça escapar. Não tem gordura para queimar. Está na frente, mas por um fio. Pega o Inter na próxima rodada, já meio desmotivado, mas sempre carne de pescoço quando o jogo é no Beira-Rio. Já o Cruzeiro enfrenta o São Paulo, em jogo sempre duro. Em tese, a missão mais fácil é a do Corinthians, que, como mandante, enfrenta o Avaí. Pode faturar três pontos e secar os rivais. E então tudo embolaria de vez. Para nossa alegria.
Ou seja, amigos: vamos curtir a emoção, e que ela seja eterna enquanto dure, como dizia o poeta.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: