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Uma nova forma de secar

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h20

Ficou engraçado ouvir a conversa entre torcedores de clubes rivais. “O seu time acabou, mano, desmanchou, já era.” Ao que o outro responde: “A janela ainda não fechou, vocês também vão se ferrar, pode crer.” Se um terceiro estiver na mesa, pode dizer: “Eu não tenho esse problema com o meu time. Quem vai querer levar aquelas tranqueiras que estão lá? Só se aparecer algum doido.”

E é isso aí. Tenho ouvido mais conversa sobre desmanches e janelas do que sobre gols e a posição dos times na tabela. Não é de hoje que isso acontece. Mas parece que, depois de alguns anos de “prática”, os times que dissolvem sem bater já entraram para o cotidiano dos torcedores. Eles sabem que, se um time estiver ajustado até o meio do ano, ele será quebrado ao meio pelo êxodo de jogadores fundamentais. É parte da “normalidade”. Montar e desmontar times ao longo do ano, como se fossem brinquedos de armar.

Foi-se também o tempo em que achávamos que os europeus eram os grandes vilões que vinham aqui tirar os “nossos meninos” de nós. É um engano primário, porque somos, no mínimo, cúmplices das aves de rapina. Primeiro, porque os meninos já querem ir embora desde que nascem, com anuência de pais, “empresários”, agentes, apaniguados e tutti quanti. Segundo, porque os clubes fingem se preocupar com o êxodo, mas dependem dele para equilibrar finanças. A última grande encenação de recusa de venda deu-se, que me lembre, no caso Robinho, quando o Santos fingiu usar de todos os meios para impedir a transferência, até que, docemente constrangido pelos 30 milhões de dólares do Real Madrid, finalmente aquiesceu.

Hoje em dia nem mesmo esse mau teatro se encena, e os dirigentes não escondem a impaciência em vender seus melhores atletas, e pelo preço que puderem apurar. Isso para não falar dos “parceiros”, que, claro, usam os clubes como vitrines para seus produtos. Ou barrigas de aluguel para suas crias. É fim de feira, mesmo.

E tanto é fim de feira que noto, talvez pela primeira vez, uma preocupação geral com o assunto. Claro que ainda existe o nosso bom e velho imobilismo, tão brasileiro quanto a caipirinha e o acarajé, e que transforma a preocupação em impotência. A pretexto de que não se pode tocar no sagrado direito de ir e vir dos jogadores, chega-se rápido à conclusão de que o mercado deve fazer seu trabalho e o resto que se dane. Outros preferem esperar que o Brasil se torne membro do Primeiro Mundo para que deixe de ser um país selvagemente exportador. Entre dois extremos, um autoritário e outro utópico, talvez haja margem de manobra para propor algum tipo qualquer de marco regulatório para o setor. O próprio Lula, ao sentir o tsunami que se abateu sobre o seu Corinthians, já disse que alguma coisa precisa ser feita. Antes de ironizarmos o governante que só se toca ao ver a própria casa caindo, poderíamos aí ver uma oportunidade de discutir a sério a questão. Se é que desejamos mesmo discuti-la a sério, sem ficarmos paralisados entre o conformismo e o voluntarismo. Isto é, sem achar que nada pode ser feito ou acreditar que a realidade vai se dobrar aos nossos desejos.

Enquanto as nossas inteligências do meio esportivo (se é que existem) não botam os neurônios para funcionar, sobra ao torcedor o remédio paliativo da piada e da auto-ironia. Melhor do que sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho, como dizia Nelson Rodrigues.

(Boleiros, 4/8/09)

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