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Valdivia é ‘o’ personagem *

Luiz Zanin Oricchio

30 Setembro 2014 | 10h10

Nós, cronistas esportivos, deveríamos ser eternamente gratos aos jogadores, técnicos, massagistas e mesmo aos cartolas. São eles que fornecem material diário para a nossa escrita. Bons ou maus, craques ou pernas de pau, são os nossos personagens. Em especial os boleiros. Mas, diferentemente do que acontece com os escritores de ficção, não somos donos dos personagens. Não podemos fazer com eles o que queremos, nem governar seus atos e pensamentos. Vivemos do que efetivamente fazem na realidade. A partir daí, podemos criar.

Digo isso em função do Valdivia. Torço muito por esse moço, mesmo porque, nas raras vezes em que joga para valer, dá um toque de classe ao Palmeiras, que, sem ofensa nenhuma (é só constatação), possui um time incapaz de arrancar suspiros do mais fanático dos palestrinos. Com Valdivia em campo, o jogo anda melhor. Flui. Tem certo encantamento. Sai da rotina e mostra lampejos de criatividade.

Sei também que pouca gente na mídia gosta do Valdivia. Há quase um consenso de que ele representa mal um time tão importante quanto o Palmeiras. Tem fama de chinelinho, encrenqueiro, marrento, criador de casos, tudo isso. Não sou louco para discordar de opinião de gente tão abalizada, e que conhece muito bem o bastidor do futebol, o lado B do que se vê em campo, a intimidade dos treinos e dos vestiários, as conversas e rivalidades entre técnicos, dirigentes e atletas. Eu não o conheço pessoalmente e dificilmente virei a conhecê-lo. Prefiro vê-lo em campo. Quando está disposto a jogar é um dos poucos, em atividade no Brasil, que sabem o que fazer com a bola. Vem daí a minha simpatia.

Mas falava dos personagens. Como qualquer escritor, ou escrevinhador, sei também que quanto mais complexo um personagem, melhor para quem escreve. Quem é muito certinho, ou regular, ou mesmo metódico, não dá boas histórias, mesmo sendo genial. Já disseram que Garrincha ou Maradona são personagens melhores que Pelé, o indiscutível maior jogador de todos os tempos. Não refuto a afirmação. Na vida, Garrincha e Maradona tiveram mais tropeços e oscilações do que o Rei. São ótimos personagens, ao passo que, em relação a Pelé, só nos resta o pasmo diante do que realizou em campo e pequenas implicâncias com as bobagens que, como qualquer mortal, ele comete de vez em quando.

Voltando ao Valdivia. Ele é a estrela solitária de uma equipe em crise absoluta. Ninguém precisa recordar o drama que o Palmeiras atravessa. Na zona de rebaixamento, em pleno ano do centenário, e com um time que, além de fraco, apresenta uma instabilidade. Mais ou menos parecida com aquela fragilidade de cristal exibida pela seleção durante a Copa. Só está faltando no Palmeiras alguém sentar na bola e chorar. O resto é parecido. Inclusive na facilidade com que toma gols em sequência, uma vez aberta a porteira. Na derrota de virada para o Figueirense, tomou três em quatro minutos. Parecia mesmo o Brasil contra a Alemanha. Um castelo de cartas que cai, fileira de dominós em que um vai derrubando o outro.

Nesse panorama é que precisamos avaliar a dimensão do ato de Valdivia. Ele, o craque do time, o bambambã do Parque Antártica, o contestado pela mídia, mas incontestado capitão do time, tem, a seus pés, a chamada bola do jogo. Aquela bola que decide o futuro de uma partida, talvez o futuro do próprio clube. A bola chega num momento crucial, em que o Palmeiras vencia por 1 a 0, e cabia a Valdivia, como matador, não pestanejar e colocá-la dentro, decretando a virtual vitória do time, livrando-o da zona de rebaixamento. E o que faz? Em vez do óbvio, chutar a gol, marcar o tento redentor, para o time e para ele próprio, dá um toque inesperado para o companheiro. Tão sutil e imprevisível que a jogada se inutiliza.

Este é Valdivia. Um personagem trágico. E, portanto, muito interessante para nós, mas talvez nem tanto para o Palmeiras.

 * Minha coluna, publicada na versão impressa do Caderno de Esportes do Estadão