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Vale pela emoção

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h53

29/7/2008
Se é isso mesmo o que importa, então estamos feitos. Porque o Campeonato
Brasileiro deste ano, tão criticado no aspecto técnico, promete emoções
profundas, tanto na parte superior quanto na inferior da tabela. Digo isso
porque, com os resultados da rodada do fim de semana, a classificação
embolou de vez. A diferença do líder, o Grêmio, para o primeiro que está
fora da zona de classificação para a Libertadores, o São Paulo, é de apenas
três pontos. Isso, no topo. Lá embaixo, a distância entre o lanterna, o
Ipatinga, e o primeiro que escaparia hoje da degola, o Vasco, é também de
três pontos. Quer dizer, o que existe é muito equilíbrio, pelo menos até
agora. Pode ser algo circunstancial, que talvez se rompa se algum time
disparar na parte de cima, ou se afundar de vez, na de baixo. Mas acredito
que vai assim até o final.
O fato é que existe um efeito nivelador no futebol brasileiro, uma espécie
de termostato que regula a temperatura automaticamente assim que ela sobe ou
desce demais. O que é lógico (dentro da lógica estapafúrdia do futebol),
pois quanto melhor for um time mais propenso ele será a perder jogadores
para o exterior e portanto piorar, até se nivelar aos de baixo. O melhor
exemplo é o do Flamengo, que disparava na ponta, trotando alegremente, até
ficar sem Renato Augusto, Marcinho e Souza, um atrás do outro. Quase ficou
sem o técnico também, sondado pela moeda forte do mundo árabe. Conclusão:
com tudo isso o Mengo perdeu fôlego, visivelmente.
É apenas um caso, mas que ilustra a instabilidade que se tornou a regra do
futebol brasileiro e faz a maior parte dos clubes viver em uma gangorra
permanente. Outros exemplos do sobe-e-desce: o Vitória veio da Segunda
Divisão e, neste momento, encontra-se classificado para a Libertadores e –
por que não? – disputando o título. Já o Fluminense, que chegou à final da
Libertadores e perdeu a taça na disputa por pênaltis, estacionou na zona de
degola e lá montou residência. O Santos, que no ano passado foi campeão
paulista e vice no Brasileiro, continua morando no mesmo bairro do Flu,
apesar da boa vitória de domingo sobre o Vasco. Por falar nele, o clube de
Roberto Dinamite é outro que anda pela proximidade do descenso. Já se
interessou pela vizinhança e procura casa na região. E o Atlético Mineiro só
tem dois pontinhos a mais que o Vasco. É outro candidato ao condomínio dos
infelizes.
Portanto, se alguém lhe pedir um palpite sobre o campeonato, o melhor é
responder como Sócrates (o filósofo, não o jogador): tudo que sei é que nada
sei. Frase lembrada por Mauro Beting e que define muito bem a nossa
perplexidade diante desse campeonato sem valores seguros e no qual qualquer
certeza torna-se candidata natural ao anedotário de bar.
Outro filósofo, Vanderlei Luxemburgo, teceu comentário na mesma direção.
Disse que não existem nem grandes times e nem jogadores excepcionais no
Brasil, tornando impossíveis as previsões. O jeito, disse ele, é garantir
pontos em casa, com apoio da torcida, e beliscar um ou outro pontinho fora,
no descuido do adversário. E é só. Não sei dizer, mas acho que constatar
essa instabilidade toda deve ser muito duro para um técnico que, por ofício,
precisa transformar o futebol em atividade racional e previsível, tanto
quanto possível. Mas é isso mesmo.
Diante dessa situação, podemos sentar no meio-fio e chorar lágrimas de
esguicho, como recomendava Nelson Rodrigues. Mas podemos também olhar para
um campeonato que tem de seis a oito candidatos ao título e quatro grandes
clubes ameaçados de rebaixamento e chegar à conclusão de que não existe
futebol mais emocionante do que este. Você decide, meu caro.

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