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Vamos aproveitar a crise

Luiz Zanin Oricchio

26 de dezembro de 2011 | 22h56

Talvez não apareça até o fim do campeonato gol tão bonito quanto o de Nilmar contra o Corinthians. Pouco importa. A sequência de dribles, a última entortada no adversário, o arremate preciso formaram uma pequena obra de arte em pleno Pacaembu. Será lembrado por muito tempo. Não chegaria ao exagero de dizer que este gol simboliza uma nova era para o Campeonato Brasileiro, mas se me limito a considerá-lo de bom augúrio quem poderá me condenar? Quem sabe teremos um nível melhor do que as disputas dos últimos anos? Não custa torcer para isso.
E não se trata de mera esperança, sem qualquer fundamento. Acho que, pela primeira vez em muitos anos, há uma quantidade razoável de bons jogadores em vários times. Alguns já testados, outros simples promessas que não sabemos até onde podem chegar. Mas são jogadores que sabem o que fazer com a bola. Basta pensar em Ronaldo, Nilmar, D’Alessandro, Taison, Keirrison, Neymar, Paulo Henrique Ganso, Kléber (do Cruzeiro), Fred, Hernanes e outros. Existe, enfim, massa crítica de talento para que os jogos não sejam meras demonstrações de raça ou de aplicação tática. Haverá, esperemos,espaço para a beleza, para a invenção e a eficiência elegante. Mais dribles, mais jogadas coletivas, mais gols para se comentar nas segundas-feiras. Tudo isso são hipóteses. Mas, pelo menos, as pessoas não começaram o campeonato tão pessimistas como nos anos anteriores.
Sabemos a causa mais imediata dessa relativa abundância. Com a crise mundial, muitos investidores resolveram segurar um pouco a carteira. A isso se deve a permanência de alguns bons jogadores no País e o retorno de outros. Mas, aproveitando essa circunstância economia, é possível também que alguns boleiros redescubram algumas vantagens de jogar no Brasil. Basta recordar que, alguns anos atrás, quando estava para sair, o jogador alegava falta de segurança, a necessidade de garantir um futuro melhor aos filhos, etc. e tal. Hoje o discurso é outro. Será que tudo mudou tanto por aqui? A ponto de os jogadores não mais considerarem um atraso de vida atuar, mesmo que seja por algum tempo, em seu próprio país?
Se for assim, podemos nos alegrar: fizemos cinqüenta anos em cinco, como queria Juscelino. Se não, podemos ser mais modestos e dizer que o Brasil, mesmo sem se comparar aos grandes centros, bem pode atender a algumas necessidades vitais dos jogadores mais exigentes. Há por aqui, pelo menos em certos clubes, a tal “estrutura”, de que eles tanto falam. Alguns gramados, como o do Pacaembu, são abaixo da crítica. Outros passariam em qualquer prova. E, sim, há a torcida que pode nem ser a melhor do mundo, a mais civilizada e fácil de lidar, mas xinga e incentiva em português. Talvez isso faça alguma diferença, afinal de contas. Em caso de dúvida, perguntem ao Fenômeno, que por certo não está perdendo dinheiro e aprende a diferença entre ser uma celebridade virtual da TV a cabo e um ídolo da vida real nos estádios de seu próprio País.
Mas, como desde cedo aprendi a ser realista nas peladas das então ruas de terra da Aclimação, sei que as crises não duram para sempre. Daqui a pouco, os investidores retornam, talvez com sede redobrada, e a revoada pode recomeçar. Com a cantilena de sempre: a segurança, a cultura, a visibilidade para a seleção, etc. No fundo, sabemos, é tudo questão de grana mesmo. Então, vamos curtir enquanto a maré se mostra ruim para eles e, por conseqüência, boa para nós. Sim, porque não vamos nos iludir: há uma profunda incompatibilidade entre nós e eles. Enquanto os negócios estiverem difíceis, há chance de haver bom futebol por aqui. Na hora em que o balcão reabrir, adeus. Aproveitemos.

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