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Vendo o jogo no quiosque

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h13

Amigos, permitam-me contar uma historinha. Como estava no litoral este fim de semana, e não tenho TV a cabo em casa, fui ver o jogo entre Ponte Preta e Santos no sagrado recinto de um botequim. Na verdade, um quiosque no Canal 6, ao lado do Zé do Coco, o mais famoso vendedor dessas frutas em Santos. Formou-se uma pequena multidão para filar a TV do quiosque, digamos uns 20 ou 25 desocupados como eu. E, claro, pela dramaticidade do jogo, pela virada e revirada, pela classificação improvável até os últimos minutos, o pênalti agônico – aquilo tudo foi virando um clima passional típico de Copa do Mundo. Pelo menos das antigas Copas, com desconhecidos se abraçando, brindando com os copos de cerveja e alguns desavisados, sem espírito crítico, até ensaiando o hino do clube. Voltei para casa sob chuva e podia ouvir, pelo bairro, gritos de comemoração e o tal do hino tocando no aparelho de som de uma e outra casa. Um senhor clima.
Tudo isso para dizer que, mesmo neste campeonato, que muita gente considera esvaziado, o velho futebol mostra-se capaz de reproduzir antigas emoções. O medo, a torcida, a esperança por um fio e o desafogo final: todos esses elementos dramáticos foram colocados, um a um, nesses 3 a 2 suados. Quem se importava, no final, que a partida não tivesse sido um primor do ponto de vista técnico? Ou que um ou outro jogador, em especial o novato Neymar, tivessem decepcionado? Na verdade, o velho e bom futebol havia cumprido ali a sua função na economia psicológica dos torcedores. Todos, tenho certeza, voltaram para casa mais leves, saudáveis, mais generosos depois dessa pequena experiência coletiva. Voltaram melhores, como quem volta de uma peça de teatro especialmente bem sucedida, em que as paixões humanas são discutidas a fundo no palco e tudo se resolve (para o bem ou para o mal) num desfecho eletrizante, para desafogo do público. Os antigos gregos chamavam catarse essa sensação de alívio proporcionado pelas tragédias. Pelo sofrimento, elas nos purgam das medíocres mazelas cotidianas e nos fazem participantes imaginários de um mundo maior, mais valoroso, aventureiro. Um mundo de paixão e loucura, de valores sólidos, regido pelo destino. Um mundo onde vale a pena viver. Sem substituir o teatro, o futebol ocupa o lugar da tragédia no mundo contemporâneo. Daí a sua popularidade, seja um embate milionário na Champions League europeia, seja em nosso humilde campeonato regional. Esse nos diz mais, é em casa, é cosa nostra.
Experiência coletiva, eu disse aí em cima. Como uma grande peça de teatro, também um jogo de futebol foi feito para ser acompanhado em companhia. Em meio aos nossos iguais. Seja num estádio lotado, seja num simples botequim defronte a uma televisão. Sozinho, não é nunca a mesma coisa. Sozinhos, não somos ninguém. Por mais que esse mundo autista tente nos isolar diante de nossas telas de computador ou de TV, nada substitui a grande comunhão coletiva e humana.
Comunhão, favorável também para observar como podem ser incertos os favores da plebe. O garoto Neymar, novo ainda, cheirando a tinta, foi hostilizado por sua inapetência pela disputa. “Pipoqueiro”, ouvi falar um ingrato. Outro acrescentou: “”Quer ir para a seleção sub-17 e se esconde do jogo”. As opiniões sobre Kléber Pereira foram compreensivelmente desencontradas: “Não pega na bola”, dizia-se no início do jogo. E, depois dos três gols: “É a nossa salvação”. Sim, senhores jogadores, mimados atletas do meu País: esse é o humor da multidão, oscilante como o de mulher caprichosa. Como diz a ópera, La donna è móbile – a mulher é volúvel.

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