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Vestiário

Luiz Zanin Oricchio

13 de fevereiro de 2012 | 23h31

Você vai ao Museu do Futebol cheio de paixão e sai de lá repleto de perguntas, o que não quer dizer que o amor pelo seu clube tenha diminuído. Pelo contrário. É essa a intenção de um museu que se deseja antipedagógico e, com o perdão da contradição, pouco museológico. O espanto é o pai da sabedoria, como dizia Sócrates, não o genial jogador morto no ano passado, mas o filósofo grego que viveu no século IV antes de Cristo. É assim também que o espectador deve se postar diante da exposição temporária Vestiário, que abre na quarta-feira para convidados e, na quinta, para o público. Aberto a um olhar novo e a uma nova perspectiva em relação ao esporte que ele crê conhecer tão bem.

 

A exposição consta de 56 fotos de Gilberto Perin, interpretada em 28 obras do artista plástico Felipe Barbosa, e que dialogam com a técnica de video mapping do VJ Spetto. Isso quer dizer que esse espaço mítico, os vestiários dos clubes de futebol, recebem não um tratamento realista, ou jornalístico, mas uma interpretação artística, que permita ao público vislumbrá-lo como espaço mítico.

 

Como diz o curador Leonel Kaz, “Trabalhamos aqui como no filme de John Ford, O Homem que Matou o Facínora, no qual se a lenda é melhor que a realidade, que se imprima a lenda”. Qual a melhor maneira de abordar essa lenda? Não poderia ser de maneira tradicional.

 

E, de fato, não se trata de uma exposição como outras, mas visa levar o espectador a uma experiência desse espaço da intimidade do futebol, onde muitas vezes se decide uma vitória ou uma derrota, que é o vestiário.

 

As fotos de Perin seriam como o aspecto mais palpável desse “espaço sagrado” do futebol, ao qual apenas os jogadores e o técnico têm acesso. As obras do artista plástico Felipe Barbosa, compostas por bolas, chuteiras, caneleiras e outros utensílios, dispostos em forma de instalação que reproduz os armários de um vestiário, enfatizam esse caráter mítico do espaço. Assim como essa impressão fica acentuada pelas animações criadas por Spetto em computador e que serão projetadas em cima das obras dos outros artistas e nas paredes da Sala Osmar Santos, onde está montada a exposição.

 

Essas três modalidades de percepção – as fotos, as instalações, os vídeos – são conjugadas de modo a proporcionar uma experiência única ao visitante. “Uma das sacadas da exposição é essa articulação entre três artes, fotografia, mapping e artes plásticas, que, sobrepostas, permitem trazer alguns dos imaginários que flutuam em torno do espaço íntimo do vestiário”, diz Clara Azevedo, diretora de conteúdo do museu. De fato, cada uma dessas modalidades se articula com a outra, como numa jogada bem urdida de um grande time. Tudo para desvendar, de maneira poética, o que é indevassável por definição e constitui, ainda, o último reduto intransponível do futebol em meio à sociedade do espetáculo e sua vocação de tudo mostrar e transformar em show.

 

Na verdade, o espaço mais escondido, o vestiário, é o que pode revelar mais a fundo a natureza do esporte. Se hoje ele é tão profissional, tão mercantilizado e pragmático, é no vestiário que seus aspectos mais essenciais se revelam. A coesão do grupo é enfatizada nos gritos de guerra, nas rodinhas de incentivo mútuo e nas palavras do “professor”. Mas há também o espaço para as crenças, para velas acesas, ramos de arruda atrás da orelha, imagens de devoção. Conta-se que, no vestiário do Santos Futebol Clube, todos os ruídos cessavam um pouco antes do início do jogo, quando Pelé, já inteiramente paramentado com seu uniforme, meias e chuteiras, se estendia sobre um banco, cobria o rosto com uma toalha e permanecia alguns minutos em silêncio. O que fazia? Tirava um pequeno cochilo antes da partida decisiva? Rezaria uma prece? Pensaria no adversário, na tática a ser empregada para vencê-lo? Ou apenas buscaria seu vazio interior,  aquele silêncio de paz que o preparava para o jogo?

 

Nunca ninguém jamais soube. Assim como (conta-se) não se sabe até hoje o que existe no armário que o mesmo Pelé trancou depois de jogar o último jogo pelo Santos, em 1974. Nunca mais foi aberto e ele não revela o que contém. Está lá, conforme a lenda, do jeito que Pelé o deixou, na Vila Belmiro. Coisas do vestiário, desse espaço de mistério. Mitos do futebol, que povoam o imaginário desse esporte, que é também uma religião para muitos dos seus seguidores.

 

Foi pensando nessa aura mítica, e no que vai além dela, que a exposição foi montada. Como diz Felipe Barbosa, “a mostra discute muitas coisas além do futebol. Alarga o conceito de vestiário, não apenas como local físico, mas como lugar de crença, celebração, fé. Um espaço sagrado, onde somente jogadores têm acesso”, diz.

 

Leonel Kaz lembra também que o vestiário é como um rito de passagem para o jogador. “Ele se despe de sua roupa civil, como a de qualquer mortal, e se veste com o uniforme do seu clube, como quem se prepara para uma batalha”. É nesse espaço que a pessoa física do atleta se transforma na figura do jogador, aquele que veste a cor de um clube ou de uma seleção e entra na arena para representar os torcedores, às vezes um país inteiro. “Uma vez acompanhei a entrada em campo do Pelé, ao lado dele, e nunca esqueci a experiência”, conta Kaz, que torce para o América do Rio. “Aquele barulho da torcida vai subindo até explodir; é algo muito físico, essa passagem do vestiário para o campo de jogo”.
Enfim, o que se tenta é a aproximação, através de da interpretação dos artistas, dessa realidade para sempre escondida dos torcedores. Por isso, o curador da mostra, Leonel Kaz diz que, “ao conceber a mostra, eu brincava que ela seria um misto entre uma exposição e uma alucinação. Por quê? Porque levaria o visitante aos extremos da sua percepção, numa comunhão singular de experiências visuais”.

 

Na superposição de espaços míticos entra o próprio local onde se dará a exposição. O espaço, hoje denominado Sala Omar Santos, em homenagem ao grande inovador da narração esportiva, era antigamente usado como vestiário. Teve esse fim até a construção do Tobogã, quando então os vestiários foram realocados no espaço do velho estádio, inaugurado em 1940.

 

 

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