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Vinícius revendo Robinho: que seja infinito enquanto dure

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h39

Com a provável volta de Robinho ao Santos, ficamos tentados a lançar mão da parábola bíblica e saudar a volta do filho pródigo, que abandona a família, volta arrependido e é bem recebido pelo pai. Melhor tomar cuidado: a tal volta nada tem a ver com a lição moral das Escrituras. Mais que saudades ou arrependimento, o que parece ter movido o jogador e seu estafe é um fino cálculo logístico. Robinho está encostado no Manchester City e, em má fase, teme não ser convocado para a Copa do Mundo. Vindo para o Santos, recoloca-se na vitrine. Pega um mamão com açúcar no Campeonato Paulista, outro na Copa do Brasil, é convocado por Dunga e joga a Copa.

Para o time inglês, o negócio também não é ruim. Empresta um jogador desmotivado, torce para que ele reencontre seu futebol, arrebente na Copa do Mundo e retorne revalorizado. Quando então poderá ser aproveitado no próprio clube ou, senão, vendido a bom preço dentro do mercado europeu.

Se esse planejamento der certo, todos ficam contentes. Incluindo o Santos que, sob nova direção, repatria um antigo ídolo e marca belo tento publicitário. Se não igual, pelo menos parecido ao do Corinthians quando trouxe Ronaldo, operação agora duplicada com a contratação de Roberto Carlos. Quanto ao lateral-esquerdo ainda não se sabe, mas a vinda de Ronaldo foi um sucesso de público, crítica, marketing e, sim, um êxito futebolístico indiscutível, que beneficiou a todos os que curtem esse esporte no Brasil e não apenas aos corintianos.

Pode acontecer o mesmo com Robinho? Pode, por que não? Com a volta do ídolo, atuando ao lado de talentos como Neymar e Paulo Henrique Ganso, a garantia é de estádios cheios, além de maior interesse da TV, valorização de cotas de publicidade, venda de camisas, etc. Afinal, quem não deseja ver Robinho de novo, com seu futebol alegre, irreverente, tão ao gosto do brasileiro? E, mais ainda, quando se sabe que sua presença tem prazo de validade limitado? Sim, por que, ao que tudo indica, ele permanece por aqui somente até agosto, quando acontece a final da Copa do Brasil ? dando de barato que o Santos estará disputando o título. Portanto, quem quiser ver o craque ao vivo terá de se apressar. Após a Copa do Mundo ou, no máximo, depois da Copa do Brasil, cuja partida final é dia 4 de agosto, ele volta para a Europa.

Esta curta permanência basta para reatar laços afetivos e matar saudades? Pode ser que sim, desde que haja uma mudança de mentalidade por parte da torcida. Precisamos arquivar aquela ideia, superada, de que um craque nos “pertence”, como Pelé pertenceu à torcida do Santos, Ademir da Guia à do Palmeiras e Nílton Santos à do Botafogo. Tirando as exceções de praxe – Rogério Ceni e Marcos – os outros boleiros vivem todos em regime de motel: na base da alta rotatividade. Hoje estão aqui e são nossos; amanhã batem asas. Agora deram para voltar por tempo limitado, para nos deixar logo em seguida. Ninguém é de ninguém, como no bolero famoso de Altemar Dutra. É a globalização, dizem.

Como antídoto para decepções, é melhor ter com os nossos “ídolos” a mesma relação de Vinicius de Morais (nove casamentos no currículo) com seus amores e dessa maneira expressa em seu Soneto de Fidelidade: “Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.” Que Robinho seja bem-vindo. Vamos curtir enquanto durar, como mandava o poeta.

(Coluna Boleiros, 26/1/10)

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