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Viola e a verdade do futebol

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h11

31/10/2006

A eleição passou, o Natal vem chegando e o campeonato está praticamente
decidido, ou pelo menos já se sabe quem será o campeão e a maioria dos
rebaixados. Assim, o que me pareceu mais interessante neste começo de semana
foi a declaração do centroavante Viola que, depois de jogar uma partida de
veteranos no Ginásio Poliesportivo de Barueri, disse que aquele tinha sido o
verdadeiro Corinthians x Palmeiras e não o jogo esquisito que aconteceu no
Morumbi na quarta-feira passada.
Grande Viola. Aos 37 anos já rodou mundo, penou com a exótica culinária de
Valência, passou por um sem-número de times, mas todo mundo o associa ao
Corinthians. Disse também que se sente em condições de defender qualquer
equipe da série A e só não está na “elite” porque o futebol foi dominado por
empresários e estes não se interessam por veteranos como ele. Mas como não?
Outro dia mesmo o Leão projetou o futuro do Corinthians, em 2007, acenando
com a contratação de Válber e Anderson Lima. Por que então o Viola não teria
mercado no atual futebol brasileiro?
Afinal, idade, condição física e técnica deixaram de ser empecilhos. Nesse
sentido, leio outra declaração, esta de Roberto Carlos, que, em entrevista
ao Sportv, disse que havia se desinteressado da seleção por causa dos
jornalistas. Não é que se sinta ultrapassado, ou admita ter feito uma má
Copa. Nada disso: a culpa é da imprensa e sua mania de cobrar jogador. Não
fosse ela, teríamos Roberto na África do Sul em 2010 e, quem sabe, no Brasil
em 2014. Mas pode ter certeza: daqui a alguns anos teremos o Roberto por
aqui, para encerrar a carreira em algum dos seus times de coração. Ou em
mais de um, por que não? Na atual situação, quando o mar não está para peixe
e urubu anda voando baixo, o futebol brasileiro parece pronto a aceitar
qualquer contribuição.
Sintoma dessa carência é o temor que encontro em muitos dos meus colegas com
a proximidade do final do ano e as inevitáveis listas dos melhores. Quem
será o craque do campeonato? Rogério Ceni é dado como nome certo, mas até aí
é chover no molhado. E como escalar o resto da seleção doméstica? Como
formá-la com os jogadores que estão por aí e não cair no ridículo? Quem é o
grande atacante do Campeonato Brasileiro? Quem é o meia que faz a diferença?
O zagueiro de classe, que desarma e sai jogando?
Na ausência desses jogadores que fazem a diferença vamos nos distraindo com
o que temos, com as exceções à regra da mediocridade, com jogadas isoladas
que acontecem vez por outra. Por exemplo, o gol de Dênis Marques, que
engoliu três zagueiros e tocou na saída do goleiro no sapeca de 4 a 0 que o
Atlético-PR deu no Paraná. Ou o milimétrico cruzamento de Reinaldo para a
cabeçada de Rodrigo Tabata, que valeu ao Santos a vitória suada sobre o São
Caetano por 1 a 0. A impressão é que Reinaldo pegou a bola com a mão e a
depositou na cabeça do companheiro. Quanto ao gol de Dênis Marques, fosse de
Ronaldinho Gaúcho no Camp Nou, o mundo viria abaixo. Como é aqui…
Mas a verdade é que vamos vivendo dessas exceções. Jogadas raras, lampejos,
faíscas na escuridão. Que sempre nos lembram de como é necessária a arte e a
técnica nesse negócio chamado futebol. Sem elas, vira trabalho, tarefa,
disciplina, organização – tudo isso que é fundamental mas não pode nem deve
substituir a essência de jogo, que é criação, arte, invenção, brincadeira
levada a sério.

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