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Violência organizada

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h53

Conheço poucas coisas mais bonitas do que um clássico, num estádio lotado e dividido entre duas torcidas igualmente entusiastas. Presenciei a vários desses jogos em minha vida e tenho deles lembranças indeléveis. Tenho certeza de que com você acontece o mesmo. Infelizmente, vou sendo forçado a chegar à conclusão de que jogos desse tipo são coisas do passado, ameaçados de extinção como as baleias azuis ou os pandas gigantes.

Fatos como os ocorridos em São Paulo, Belo Horizonte e Rio neste último fim de semana apontam para essa triste conclusão. No Morumbi, o confronto entre a organizada do Corinthians e a polícia, com dezenas de feridos, suspeita de bomba caseira, etc. Em Minas, um torcedor morto com um tiro antes de Atlético x Cruzeiro no Mineirão. No Rio, as torcidas de Botafogo e Flamengo “marcam” uma briga, que só não aconteceu porque a polícia ficou sabendo e interveio.

Com ânimos assim tão acirrados, os dérbis, essa rivalidade local, a grande rivalidade dos próximos, que é o próprio sal do futebol, estão produzindo vítimas. Talvez estejam com os dias contados. Pode ser que no futuro próximo tenhamos apenas a torcida do mandante em campo, sem nem os 10% que a diretoria do São Paulo destinou aos corintianos no Morumbi. Pelo que sei, essa medida extrema havia sido adotada na Argentina para enfrentar a rivalidade mortal entre Boca Juniors e River Plate. Na Bombonera, só torcedores do Boca; no Monumental de Nuñes, só os do River. Funciona. Mas não posso imaginar coisa mais triste que isso. O time da casa recebendo o apoio dos seus e o visitante debaixo de permanente hostilidade, sem aquela alterância das torcidas, que é um dos ingredientes mais empolgantes dos antigos clássicos. É triste, mas há quem veja aí uma saída possível para esse impasse.

Certo, alguma coisa precisa ser feita. Mas tenho lá minhas dúvidas sobre a eficácia dessa medida. Algumas vezes o pau quebra dentro do estádio. Mas, briga-se também nas imediações dos campos, nas estações de metrô, onde quer que torcidas rivais se encontrem. Agora nem com esse acaso fatal é preciso contar. As facções programam a briga – pela internet – em local suficientemente aprazível para não serem molestadas pela polícia.

É difícil decidir o que fazer quando o futebol virou válvula de escape para esse tribalismo exacerbado. Ele se manifesta na base do “quem não está comigo está contra mim”. Ou “quem é diferente de mim é meu inimigo e deve ser destruído”. Esse sentimento de intolerância está na base da xenofobia, o ódio ao estrangeiro que revive como praga na Europa da crise econômica.

Quer dizer que a violência, que usa o futebol como pretexto, é coisa da nossa época e tudo antes funcionava na base da paz e do amor? Nada mais enganoso. Fiz uma pesquisa para um livro sobre futebol e cinema e encontrei a curiosa ficha de um filme. Fala da vigorosa briga entre torcedores oponentes, que foi terminar na delegacia. Senhoritas também entraram na rixa e foram detidas. O filme documenta o jogo Paulistano x Palestra Itália, com vitória do primeiro. No ano de 1921!

Delitos sempre existem, o problema é quando viram crime organizado. Assim é com a violência no futebol. Ela não apenas aumentou: organizou-se. Não vai recuar espontaneamente.

(Coluna Boleiros, 16/2/09)

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