Brasil testa e rejeita modelo chinês por medalhas olímpicas
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Brasil testa e rejeita modelo chinês por medalhas olímpicas

Demétrio Vecchioli

16 de janeiro de 2014 | 06h45

Não é segredo que a China é uma máquina de revelar campeões olímpicos em algumas modalidades. Para isso, adota muitas vezes (quase sempre) um modelo ao mesmo tempo vitorioso e contestado. Obriga crianças a se submeterem a uma carga pesada de treinamento, tira as mesmas do convívio dos pais e deixa-as reclusas, pensando apenas nos treinos. Nem para competições esses jovens vão. Querendo entrar no Top 10 do quadro de medalha na Olimpíada do Rio, o Brasil testou o formato chinês. E o reprovou.

Um dos carros-chefes dos chineses nos Jogos Olímpicos tem sido os saltos ornamentais. Em Londres, das 12 medalhas possíveis, os chineses ganharam 10. Dos oito ouros distribuídos, faturou seis. Pensando no desenvolvimento da modalidade, a CBDA contratou a técnica Yu Fen, ex-vice head coach (técnica principal) da seleção chinesa, para ser sua consultora. E levou alguns jovens atletas para treinar na Tsinghua University, em Pequim, acompanhados de dois técnicos brasileiros.

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A tentativa, porém, deu completamente errado. Depois de dois estágios de cerca de quatro meses na China em 2013 (um em cada semestre), atletas e treinadores simplesmente se recusaram a voltar. Dentre as reclamações estão problema com comida e moradia, dificuldades com a língua, interrompimento dos estudos e carga exagerada de treinos. A ponto de uma jovem promessa, talvez a maior que os saltos ornamentais têm no Brasil, voltar para o País com medo de saltar.

É por trás dessa recusa dos atletas que está a mais nova crise do esporte brasileiro. A CBDA teve que demitir a consultora chinesa e agora vai contratar um técnico para trabalhar no Brasil. Mas falta um ginásio para treinos. O centro de saltos do Julio Delamare foi derrubado antes da Copa das Confederações e não será reerguido até a Olimpíada. E foi porque precisa urgentemente dele que Coaracy Nunes, presidente da CBDA, resolveu bater de frente com o governador Sergio Cabral.

NEGÓCIO DA CHINA – A primeira leva viajou no primeiro semestre com Ian Matos, Luiz Outerelo, Rui Marinho (mais experientes, já maiores de idade), Ingrid Oliveira, Giovanna Predroso, Jackson Rondinele, Isaac Souza, Luana Lira, Andressa Mendes e Gabriela Jade. No grupo, alguns jovens de até 14 anos, tutelados pelos técnicos Alexander Ferrer, Andréia Boheme e Rosane Trindade.

Todos foram colocados para morar num hostel em Pequim, quatro por quarto, com as malas do lado de fora. Depois de reclamarem, conseguiram dobrar o número de aposentos, mas seguiram no albergue, onde só iam para descansar. A maior parte do tempo ficavam mesmo na universidade, treinando. Ali também se alimentavam. “Na janta, só comiam hambúrguer. Minha filha voltou gorda. Não pode, ela é atleta”, reclamou uma mãe.

Neste primeiro estágio, Yu Fen até trabalhou com os brasileiros. Mas a maioria deles não fala inglês e sequer entendia os comentários, que tinham sempre um treinador brasileiro como intermediário. Por orientação da chinesa, o grupo não participou dos Grand Prix que serviriam de seletiva para o Mundial. Assim, nenhum deles foi a Barcelona. A CBDA, porém, permitiu que os atletas voltassem ao Brasil no meio do ano e participassem do Sul-Americano Juvenil e da Universíade. Com resultados internacionais, manteriam o Bolsa Atleta.

Em setembro o grupo voltou à China (sem Jackson) e encontrou novos problemas. A CBDA havia arranjado uma casa para eles, mas a mesma não tinha aquecimento. Em novembro, a temperatura rondou 0º C. Outras reclamações eram a piscina sempre lotada da universidade e a falta de atenção da chinesa, que agora sequer observava os saltos dos brasileiros.

“Ela é muito rígida com o treinamento. Ela exige dos atletas. Tanto no treinamento quanto na educação. Não é nossa cultura. A gente gosta de abraço, carinho, eles têm uma outra cultura. Ela é sempre muito dura. É como se fosse uma obrigação ter feito uma evolução”, explica Eduardo Falcão, responsável pelos saltos na CBDA.

O modelo chinês fez mal a uma das principais (senão a principal) revelação dos saltos ornamentais do Brasil nos últimos anos, que terá seu nome preservado aqui, uma vez que estamos falando de problemas de um pré-adolescente. “Ele teve overtraining. Ficou saturado, treinou muito. Tem 14 anos. Na cultura oriental, principalmente a chinesa, os garotos começam a treinar muito cedo. Então têm que fazer uma carga muito grande de treinos. E o que aconteceu foi isso. A chinesa sobrecarregou ele treinamento”, admite o dirigente.

O atleta em questão voltou da China pensando em largar o esporte. “Ele pediu um tempo e repensou. Por isso que ele está voltando. O trabalho é de descompressão. Agora é voltar com calma, não vamos pular etapa”, diz Falcão.

RECUSA DOS ATLETAS – Dos nove saltadores que foram à China no segundo estágio, só um aceitou voltar. Todos os demais disseram que não tinham mais interesse. Uma das reclamações era de que crianças perderam um ano letivo e perderiam dois caso a proposta da CBDA – ficar o ano todo morando na China – fosse aceita. Os universitários também não queriam trancar o curso.

Quando conversei com Falcão, o discurso inicial era de que foi da CBDA a decisão de encerrar o projeto China. “A gente suspendeu o projeto porque estava inviável financeiramente e também houve muitos problemas nas duas etapas que eles foram para a China”, disse, de início. Depois, com o tempo, ele foi confirmando que o plano da Confederação era sim mandar os atletas para morar um ano na Ásia, onde os mais jovens estudariam numa escola internacional. “Para a gente, só chegou que eles iam ter uma professora de inglês”, diz uma das mães.

Questionei o dirigente sobre o problema da educação (estamos falando de jovens de 14, 15 e 16 anos). “Alguns repetiram de ano. Foi uma escolha deles. Nós colocamos isso pra eles. É um sonho olímpico e cada um teve que se ajeitar. Um ou outro teve que se sujeitar. Foi uma escolha da  família e do atleta viajar”, alegou.

E AGORA? – A CBDA agora está numa sinuca de bico. Teve que cancelar o projeto China e não tem onde treinar no Brasil. Os atletas precisam de um “ginásio seco”, um local fechado (um barracão) onde possam realizar treinos com corda elástica. É assim que aprendem a realizar movimentos, com os treinadores guiando pela corda.

O problema é que o ginásio do Julio Delamare (o CT Carlos Arthur Nuzman) foi derrubado quando o governo do Rio decidiu tomar o parque aquático e destruí-lo visando a Copa. Sergio Cabral mudou de ideia, mas não reconstruiu o centro de saltos. O Maria Lenk está sendo reformado e a solução deve ser levar a seleção para Brasília.

“Aqui no Rio ainda não tem um ginásio. Só no fim do ano vai ficar pronto o Cefan. Não liberaram ainda a piscina da Urca também.  Lá seria um lugar muito bacana. Provavelmente vamos para a  UNB, que já está pronta para receber uma seleção”, explicou Falcão, que está contratando um técnico estrangeiro. O nome deve ser revelado na semana que vem.

COMENTE – E você? Concorda com a estratégia da CBDA? Acredita que os atletas fizeram certo em se recusar a voltar? Comente pelo Facebook ou pela caixinha de comentários.

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