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Doping faz campeã mundial largar o boxe e virar lojista na Oscar Freire

Demétrio Vecchioli

06 de janeiro de 2014 | 08h00

Dentre os diversos perfis que circulam diariamente pela Rua Oscar Freire, um parece não combinar nada com uma das mais nobres áreas da cidade. Roseli Feitosa, operadora de caixa na Schutz, marca de bolsas e sapatos, chegou à calçada mais cara de São Paulo porque, assim como tantas mulheres, desejava perder peso.

Mas os 800 gramas extras no corpo da paulista de 24 anos não a atrapalhariam para entrar num vestido. No currículo, enviado para a loja mesmo sem ter qualquer experiência na função, Roseli não citou que era campeã mundial de boxe feminino e atleta olímpica do Brasil nos Jogos de Londres. Nem que se dopou para participar da semifinal da categoria até 75kg do Campeonato Brasileiro de Boxe, em julho.

“Tomei o diurético no desespero. Já havia feito a primeira pesagem e batido o peso. Na segunda luta, não consegui bater, porque estava menstruada, estava frio, eu estava cansada, sem comer direito, e treinando muito. Acabei fazendo isso para tirar 800 gramas”, admite Roseli, em entrevista exclusiva. Ela venceu a semifinal, mas perdeu a decisão do ouro.

Esta é a primeira vez que a atleta fala sobre o caso de doping. Roseli foi pega pelo uso de clorotiazida, hidroclorotiazida e sibutramina durante o Brasileiro, realizado em Campo Grande (MS). Notificada em setembro, foi na sequência suspensa por um ano pelo painel antidoping da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe). Ela recorre ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) da entidade.

O caso ficou em segredo até o último dia 19, quando o Olimpílulas relevou o doping de Roseli e de outras duas atletas do boxe feminino. Só então a CBBoxe notificou o Ministério do Esporte. Assim que a pasta tomou conhecimento da punição, suspendeu o pagamento mensal de R$ 3,1 mil a que Roseli tinha direito pelo Bolsa Atleta. Como não pode competir, não recebe mais a remuneração.

Mais do que isso, ela terá que devolver a primeira parcela de 2014 da Bolsa, que foi antecipada pelo Ministério em setembro. De um dia para o outro, Roseli se viu sem o boxe, sem futuro, sem sua fonte de renda e endividada. Situação que contou na entrevista para trabalhar como caixa, convencendo a interlocutora, que jogava vôlei quando mais jovem. Ali, a boxeadora arranjou um emprego, mas perdeu o tempo que tinha para treinar.

“São as consequências da besteira que fiz. Minha vida mudou depois disso e sei que um dia vou agradecer a Deus por tudo isso. Até em suicídio eu pensei. Entrei em depressão, comecei a fazer coisas horríveis e até quebrei uma janela de vidro em casa com um soco. Levei quatro pontos na mão. Tudo por causa deste momento que passo agora”, conta a atleta, que não tem planos concretos de quando voltará a calçar as luvas de boxe.

Roseli chegou ao melhor momento da carreira em 2010, quando venceu o Mundial na categoria até 81kg. Mas, quando a modalidade estreou no programa olímpico na sua versão feminina, ganhou apenas três categorias de peso: até 48kg, até 60kg e até 75kg. A boxeadora teve que perder pelo menos 6kg e acabou eliminada na primeira luta em Londres.

Por questões que envolvem não só o aspecto técnico, mas também e principalmente questões políticas, Roseli, Adriana Araújo (bronze em Londres) e Erica Mattos, as três atletas olímpicas do boxe feminino brasileiro, foram cortadas da seleção no início do ano passado. Adriana diz estar arrependida das críticas que fez ao presidente da CBBoxe, Mauro José da Silva, que sequer aceita falar sobre a medalhista olímpica. Já Erica está esperando o primeiro filho do vice-campeão mundial Robson Conceição e se afastou dos ringues.

Roseli tinha, no Brasileiro, a grande chance de mostrar que merecia um lugar na seleção e caminhava para enfrentar na final a sua rival (para não dizer inimiga) Daniele Bastieri, que também tem um caso de doping no currículo e hoje é a titular da seleção categoria. Na decisão do ouro, uma luta incrível, franca, agressiva, vencida pela capixaba, por decisão unânime dos árbitros.

“Antes do Brasileiro tive um problema no joelho direito, porque estava treinando e correndo muito. Tive que parar de correr por quase sete meses e só voltei agora em dezembro. Sofri muito para perder peso e acabei tomando (o remédio para perder peso) Oxyelite, que tinha a sibutramina”, reconhece Roseli. As outras duas substâncias proibidas detectadas pelo exame antidoping vêm do diurético tomado durante a competição.

A boxeadora diz que se arrepende “com toda alma e coração” do doping, mas não acha que foi desleal com as adversárias. “Não tomei nada para obter vantagens em cima delas. Tem muita gente que toma coisas piores como anabolizantes para se sobressaírem. E no caso do diurético foi no desespero mesmo. Já vi casos de meninas vomitarem a comida para bater peso, de cortarem os cabelos. E eu acabei fazendo isso.”

Mas as loucuras feitas para perder peso vão muito além, segundo denuncia Roseli. “Muita gente do boxe tomava diurético em competição. Eu não tomava nada porque nunca tive problemas com peso. Comecei a ter há dois anos. É uma prática muito recorrente no boxe brasileiro. Ainda existem muitos atletas que se submetem a isso”, diz ela.

Segundo Roseli, nunca houve controle antidopagem efetivo no boxe brasileiro. Ela afirma ter realizado outros cinco exames antidoping durante a carreira: um no Mundial, outro no Pré-Pan e três durante treinos da seleção. “Esse agora no Brasileiro foi surpresa porque ninguém imaginava que em um Brasileiro teria esse tipo de exame, porque é muito caro”.

O Brasileiro Feminino aconteceu juntamente com o Brasileiro Juvenil Masculino e, segundo o médico Bernardino Santi, responsável pelo controle de doping da CBBoxe, 19 testes foram feitos durante a competição. Além de Roseli, foram pegas Rosilaine Volante, campeã na categoria até 60kg, com diurético, e Sara Andrade, atleta da categoria até 64kg, que testou positivo para estanozolol, a mesma substância usada pelo ex-velocista canadense Ben Johnson na Olimpíada de Seul em 1988. Um claro indício de que não esperava o exame antidoping.

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