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Ciclismo feminino teve só 2 testes em 2014: ambos indicaram doping

Demétrio Vecchioli

29 de outubro de 2014 | 20h14

Dois exames antidoping realizados, duas atletas flagradas pelo uso de EPO, hormônio sintético utilizado para produzir glóbulos vermelhos e ajudar na resistência. Foi esse o saldo não apenas da prova feminina do Campeonato Brasileiro de Ciclismo de Estrada, realizado em junho passado, em São Carlos (SP), como de toda a temporada 2014 da modalidade no País. Marcia Fernandes, campeã brasileira de elite, e Nayara Gomes Ramos, vencedora no sub-23, testaram positivo para EPO e estão suspensas por dois anos – a UCI (federação internacional) ainda precisa referendar a pena.

Pelo que apurou o blog, os dois exames para EPO, que custam cerca de US$ 500, foram os únicos aplicados em atletas brasileiras (mulheres) de estrada pela CBC (Confederação Brasileira de Ciclismo). Nunca é demais lembrar que a modalidade é a que mais tem sofrido com escândalos de doping, com casos regulares principalmente por EPO. Em 2009, quatro atletas da DataRo, de Cascavel, receberam dois anos de suspensão por doping exatamente por uso desse hormônio sintético.

Comunicadas, nenhuma das duas atletas flagradas no Brasileiro de Ciclismo pediu a análise da contraprova, indicando que admitem o doping. Elas foram julgadas no último dia 15 de outubro, em sessão presidida pelo médico Eduardo de Rose, principal autoridade brasileira em controle antidoping, e punidas com dois anos de suspensão, retroativa à data do exame.

O caso mais grave é de Marcia, 23 anos, a mais jovem do clã Fernandes, composto por ela, Janildes, Clemilda e Uênia, todas regularmente convocadas para a seleção brasileira da modalidade. Elas não competem mais pela mesma equipe (Marcia e Clemilda defendem a Durango, da Espanha), mas treinam juntas boa parte do ano. Procurada, Márcia não quis se pronunciar sobre o caso. Janildes, a mais velha do quarteto, alegou que a imprensa não procurou a ciclista quando ela venceu o Brasileiro (realizado durante a Copa) e que estranhava o interesse repentino pela modalidade. 

Questionada se o doping na família preocupa, a CBC respondeu por escrito que: “está fazendo os controles. Aqueles que forem flagrados fazendo uso de substâncias proibidas para a prática do ciclismo, serão penalizados”. Já com relação a um possível aumento no controle depois de duas campeãs flagradas, a entidade escreveu: “A CBC estará sempre realizando os exames no maior número de provas possível. A CBC também analisa a possibilidade de realização de exames surpresa fora de competição”.

Marco Antonio Barbosa, diretor técnico, e Francisco Cusco, diretor do alto rendimento, se esquivaram de responder sobre o risco de um doping sistemático, dizendo que há controle regular no circuito internacional (da qual as brasileiras quase nada participam, segundo reclamam sempre). Nenhum dos dois indicou que a CBC tenha se preocupado em saber se Marcia se dopou por conta ou incentivada por um treinador. “Não temos conhecimento sobre esta questão”, respondeu a entidade, também por escrito.

O blog então questionou Barbosa sobre o número de exames antidoping aplicados pela CBC nas atletas de alto rendimento da família Fernandes. “Fizemos os controles no Campeonato Brasileiro (nota do blog: apenas nas campeãs). Para as outras ciclistas mencionadas no questionamento, como de costume, as mesmas foram submetidas a exames nas competições do calendário europeu representando suas equipes.” Só Clemilda e Marcia competem fora.

O calendário do ciclismo feminino também não ajuda em nada as atletas – e o controle de doping. Este ano, foram canceladas a Copa América, o Giro Feminino, o GP Memorial e a Volta Feminina da República, todas válidas para o ranking mundial. Voltas internacionais importantes, como de São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul não tiveram provas femininas, mesmo caso do Tour do Rio. Na conta final, o Brasil teve zero eventos internacionais femininos em 2014. A seleção também não foi convocada para nenhum camping de treinamento.

Nayara, de 19 anos, não foi encontrada pelo blog. O técnico que a formou em Araçatuba (SP), Alemão, a dispensou assim que soube do doping. Ele alega ter perdido o contato com a atleta, que hoje mora em Maringá (PR), com o namorado. Os dois casos parecem não ter relação.

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