Brasileiro revela treinos com Phelps, fala sobre possível volta do mito e promete “boa notícia”
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Brasileiro revela treinos com Phelps, fala sobre possível volta do mito e promete “boa notícia”

Demétrio Vecchioli

20 de janeiro de 2014 | 08h00

Maior medalhista olímpico da história, Michael Phelps vai abandonar a aposentadoria iniciada fim dos Jogos de Londres, em 2012, para tentar aumentar a sua enorme coleção de medalhas nos Jogos do Rio? Poucos sabem a resposta da pergunta que mais intriga jornalistas, nadadores, e a torcedores no esporte olímpico. Um dos portadores do segredo é brasileiro: o uberlandense Gabriel Fidelis de Sousa.

O mineiro é quase um peixe fora d’água na North Baltimore Aquatic Club Swimmers, a equipe de Phelps e que tem outros sete medalhistas em Olimpíada ou Mundial entre sua uma dezena de atletas. Gabriel nunca disputou uma competição de grande porte, apesar dos 24 anos. Na sua prova forte, os 200m peito, tem como melhor marca um tempo que o deixaria apenas no 26.º lugar no Mundial de Barcelona. Na sexta, terminou em quinto no GP de Austin (Texas).

Mesmo assim, está enturmado com os pupilos do consagrado treinador Bob Bowman, que o aceitou na equipe depois de receber um descarado e-mail, no meio do ano passado, com a promessa de que o brasileiro faria de tudo para ser mais rápido.

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Gabriel nega (foi instruído a isso), mas sabe a resposta para a pergunta para a qual o mundo quer a resposta. Nesta entrevista exclusiva (publicada metade hoje, metade amanhã), porém, ele conta o que Phelps pretende voltar se entender que está preparado e promete que em breve receberemos “boas notícias”.

Para começo de conversa: como você chegou a Baltimore?

(nota do blogueiro: favor ler as respostas imaginando um sotaque mineiro carregado)

Eu vim através de um contato que eu tinha nos EUA, que conhecia o Bob Bowman. Entrei em contato com ele via e-mail. A gente foi conversando e coincidiu de ser numa época que eu estava querendo fazer uma coisa nova. Estava querendo inovar no treinamento visando a Olimpíada.

Mas quem era esse contato mágico?

Sempre dei muita sorte na minha vida. Em março de 2011, fui para um Grand Prix em Ohio e conheci esse cara que tem contato com o Bob e com o Phelps. Eles também estavam lá em Ohio, o Phelps estava treinando para a Olimpíada. Peguei e vi a equipe dele lá e pensei: ‘Pô, tirando o Phelps, essa equipe não tem ninguém que é monstro igual ele, não. O único cara que tinha bão, bão mesmo era do revezamento.

E o que te fez mandar um e-mail para o melhor técnico do mundo?

Desde aquela época fiquei com isso na cabeça. Em 2013 bateu aquela vontade de mudar. Fui atrás desse cara e ele passou o contato do Bob. Escrevi para ele que tinha acabado de ganhar o Troféu Maria Lenk (de 2013, nos 200m peito) e tinha ganhado o Finkel pela primeira vez em 2012. Que nunca tinha ganhado nada em nível internacional, mas que em 2012 tive uma melhora muito grande. Escrevi: “Estou disposto a melhorar e queria treinar com você”. Aí o e-mail que ele mandou foi assim: “Se você está disposto a trabalhar duro para ser muito melhor, posso considerar a ideia de ter você no time”.

Demorou a cair a ficha?

Na hora achei que tivesse mandado para algum fake. Depois que fui ver que era e-mail dele mesmo. Não esperava que ele fosse responder, ainda mais no mesmo dia! Eu já tinha mandado e-mail para outras duas universidades americanas nas quais eu seria o melhor nadador e os caras nem me responderam.

Quem treina com você?

Só tem medalhista olímpico: o Yannick Agnel (francês ouro nos 200m livre em Londres, três medalhas olímpicas), a Lotte Friis (dinamarquesa bronze nos 800m livre em Pequim, uma medalha), o Matt McLean, o Conor Dwyer (norte-americanos, ambos ouro nos 4x200m em Londres), o Oussama Mellouli (tunisiano, ouro na maratona aquática em Londres, três medalhas), o Chase Kalisz (norte-americano, prata nos 400m medley no Mundial de Barcelona, superando Thiago Pereira) e a Allison Schmitt (norte-americana, ouro nos 200m livre em Londres, seis medalhas).

E como toda essa gente te recebeu?

Quando eu vim para cá no começo não foi fácil, não. Meu inglês estava no basicão. Cheguei aqui e no primeiro dia dei de cara com o Michael Phelps. Para eles chega a ser engraçado como é que esse brasileiro veio parar aqui. Para ser sincero até eu não sei. Eu tenho ideia de onde eu estou e dos meus resultados, que não dão nem para comparar com o deles.

Isso foi em julho. E como estão as coisas agora?

Eu nunca treinei tanto que eles treinam. Eles gostaram de mim porque viram o tanto que eu sou esforçado, o tanto que eu tento. O que eu não entendo, pergunto. Eu tô curtindo pra caramba. Sempre foram meus ídolos, sempre acompanhei todos eles. Chegar aqui e ver como é o treinamento já é motivo de muita satisfação.

Você já se sente parte de uma das melhores equipes do mundo, senão a melhor?

No Brasil, quem já é do alto nível às vezes não te trata como igual, não cumprimenta, não dá uma dica, não conversa, não passa o conhecimento. Fiquei até impressionado. Todos aqui são tratados como igual. Não importa se é campeão olímpico, se não é. A receptividade foi muito boa. Claro que não sou melhor amigo do Phelps aqui, mas está sempre conversando, sempre trocando ideia.

E a relação com o Phelps? Ele pergunta do Rio?

Fiquei uma semana na Florida fazendo camping training, ficamos todos na mesma casa. Ele pergunta algumas coisas, mas nada específico de natação, coisas em geral. Quanto custa o PS4 (PlayStation4) no Brasil, por exemplo. Ele achou um absurdo. (E é. R$ 4 mil!)

Vocês já jogaram PS4 juntos? Você já foi na casa dele?

Nunca jogamos, mas já fui na casa dele, sim. Mas essas coisas a gente não pode falar.

Vocês treinam juntos todo dia? Como é a rotina de treino?

Ele faz o que ele pode, porque ficou muito tempo sem nadar. Ele não faz o mesmo programa, faz mais de leve. Mais básico. Ele viajou com a gente para St. Petersburg, mas não fez o mesmo programa.

Ele treinou todos os dias na Florida? Ele treina todos os dias em Baltimore? Te dá dicas?

Não ele não treina todos os dias, nem treinou todos os dias lá, mas a gente não pode falar sobre isso. Nas séries difíceis, ele sempre incentiva, dando palavras de apoio. Não só para mim, mas para todos. Basicamente é sempre assim ” Vamos lá, Gabe, estamos quase lá. Mantenha o ritmo, você está indo muito bem”.

Você sabe se ele vai voltar a nadar?

Ele não admitiu a volta dele hora nenhuma. Nem pra gente. Ele quer estar em forma de novo e se achar que está em condições de nadar no nível que nadava, acredito que possa voltar.

Como é a rotina de vocês ao lado do Phelps? Vocês já estão acostumados a fugir dos jornalistas?

É complicado. Tinha carro seguindo a gente, teve que chamar a polícia. Se tivesse gente tentando fotografar não podia. É bem fechado isso.

Vocês receberam orientações para não falar do Phelps?

Eu estou aprendendo a lidar ainda. Nunca tive essa experiência antes, mas com certeza a gente tem que tomar cuidado com o que agente fala. Não tem muito o que falar, porque basicamente o que ele está fazendo todo mundo já sabe: que já fizeram alguns exames antidoping nele, que ele está na lista da Wada (Agência Mundial Antidoping). Ele próprio não faz questão de esconder.

Imagino que não seja só eu te perguntando um monte de coisa sobre o Phelps? Você voltou para o Brasil no fim do ano? Teve que responder muita coisa?

Teve bastante pergunta, viu. Eu queria poder dar mais informação, porque eu também quero falar o que eu sei, mas infelizmente a gente não pode. Eu vou poder, em breve, e vai ter até notícia muito boa.

COMPLEMENTANDO – Falei com Gabriel antes do GP de Austin, que aconteceu neste fim de semana. O brasileiro acabou em quinto nos 200m peito, com 2min16s27. A vitória foi de Ross Murdoch (Grã-Bretanha), com 2min12s15. Em Minneapolis, no fim do ano passado, na abertura da temporada norte-americano, ele também havia sido quinto. Mas a prova foi em piscina de jardas e os tempos não são comparáveis. 

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