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Brasil pode jogar Olimpíada com sete reforços estrangeiros no polo

Demétrio Vecchioli

15 de outubro de 2013 | 22h29

Perrone

Entre mudanças de nacionalidade esportiva e naturalizações por “canetada”, o Brasil pode disputar o polo aquático masculino nos Jogos do Rio com um time inteiro de jogadores importados. Um sérvio, um croata, um australiano/italiano, dois espanhóis, um norte-americano e um cubano estão na lista de reforços para a equipe treinada pelo sérvio Mirko Blazevic. Tudo para desenvolver a modalidade no País, que não joga uma Olimpíada desde Los Angeles/1984.

Reforço quase certo é Felipe Perrone, que defendeu o Brasil até 2004. Na época, ganhar dinheiro como jogador de polo aquático, o “esporte secreto”, como chamam seus praticantes, era utopia. “Jogava para mim mesmo. Não havia reconhecimento”, conta.

Por isso, o carioca, depois do Pré-Mundial daquele ano, aceitou o convite para defender a Espanha e seguir o irmão. Capitão da seleção brasileira no Mundial/2001, Kiko recebeu o convite para jogar por um clube espanhol, adaptou-se bem, e aceitou mudar a nacionalidade esportiva já no ano seguinte.

A volta de Felipe ao Brasil se deu para a Liga Nacional/2013, que pela primeira vez terá quatro meses – de setembro a dezembro. Presidido no Brasil pelo ex-jogador de polo Zeca Oliveira, o banco BNY Mellon, patrocinador do Fluminense, ajudou o clube a contratar Felipe por três anos – Kiko também voltou, aos 39, mais como bancário do que como jogador.

Para Felipe, e utopia virou realidade. Nove anos após ir embora, hoje um dos melhores do mundo, ele é jogador profissional de polo aquático.

Carismático, trouxe dois amigos na bagagem: o centro (pivô) croata Josip Vrlic, seu companheiro no Barceloneta, time terceiro colocado na última Liga dos Campeões da Europa, e o goleiro sérvio Slobodan Soro, bronze nas duas últimas Olimpíadas, mas que foi descartado de sua seleção por conta dos 34 anos.

“São as posições mais carentes hoje no Brasil, que todo time precisa ter: um bom goleiro e um bom centro”, explica Felipe, que conversa com a CBDA em nome dos três. Vrlic tem residência no Arpoador há dois meses, avisou à federação croata que não tem interesse em jogar pelo país, e o seu processo de naturalização já foi aberto. Soro assinou com o Flu até o fim do ano, mas não foi inscrito a tempo na Liga. Se ficar no Brasil, precisa procurar outro clube – o Flu tem o titular da seleção.

A CBDA faz lobby para que eles fiquem. “Vamos tentar na canetada. Se for cumprir o trâmite normal, demora muito. Mas como existiu uma predisposição do governo em ajudar, vamos ver. O Josip já é brasileiro, já o chama de José”, diz Ricardo Cabral, coordenador de polo aquático da entidade.

Felipe e seus amigos colocam até dezembro como limite para decidir se jogarão pelo Brasil. Aguardam o projeto que lhes será apresentado. Ouvirão que a CBDA tentará junto ao ministério do Esporte um convênio para fazer três estágios na Europa em 2014. “Mas o grande projeto é de outubro de 2015 a maio de 2016 a seleção ficar morando na Sérvia e jogando a liga sérvia”, explica Cabral.

Outro grande nome do polo que está no País é Tony Azevedo, que nasceu no Rio mas cresceu nos EUA, onde o pai (companheiro do pai de Felipe e Kiko na seleção nos anos 1970), trabalhava como técnico. O jogador assinou recentemente com o Sesi-SP um contrato até o fim de 2014 para defender o clube, ajudar no desenvolvimento do time e divulgar a modalidade a cada 15 dias nas escolas da rede pelo País.

Mas, nas primeiras conversas com a CBDA, Tony já deixou claro seu compromisso com os EUA. Diferente de Felipe, ele seria um norte-americano, capitão da sua seleção, renegando a pátria. “Jogar pelo Brasil ainda não está descartado”, pondera o jogador, num sotaque para lá de carregado. “O Tony é ídolo nos EUA. Mas quem sabe daqui uns meses ele tenha se apaixonado pelo Brasil e não decida aceitar nossa oferta”, reforça Cabral.

Outra estrela internacional do polo que tem passaporte brasileiro, Pietro Figlioli está praticamente descartado. Filho de José Fiolo (ex-recordista mundial dos 100m peito), o jogador defendeu por muito tempo a Austrália (onde cresceu), mas foi jogar na Itália, casou-se com uma italiana, obteve a tripla cidadania, e desde 2009 joga pelo país europeu, tendo sido eleito para a seleção ideal do Mundial deste ano. “Ele se sente italiano”, diz Cabral.

Para Pietro, o tempo corre. Para mudar de “nacionalidade esportiva”, pelas regras da Fina, um jogador deve ficar dois anos sem defender outra seleção e ter residência fixa no novo país por um ano. Felipe e Tony jogaram o Mundial, mas não têm compromissos com Espanha e EUA ano que vem. Se desejarem, têm mais de um ano para decidirem que país defenderão em 2016.

Outros dois reforços vêm para somar e de forma natural. Um é Ives Gonzalez, do Pinheiros. Cubano, ele vive no Brasil desde 2010, já não joga há quatro anos por Cuba, casou-se com uma brasileira e está tirando a cidadania brasileira por conta própria. Outro é Adrià Delgado. Filho de brasileiro, mas criado na Espanha, jogou com Felipe no Barceloneta, veio conhecer o Brasil e se apaixonou. Com contrato com o Flu até 2016, já está há mais de um ano no País e disputou a Liga Mundial pela seleção. É caso resolvido.

A análise unânime, independente do que venha ser a seleção em 2016, é que a simples presença deles na Liga Nacional já mudou o polo brasileiro. “Só de treinar com o Tony todo dia, minha evolução já é muito maior”, diz Grummy, 19 anos, que já jogou com Felipe na Espanha e lidera a melhor geração da história recente da modalidade, tricampeã pan-americana júnior com talentos como Pedro Vergara (Hebraica), Pedro Sallet (Flamengo) e Guilherme Gomes (Flu).

“É um incentivo para treinar mais. Já que tem caras bons vindo para o Brasil, para você se manter na seleção você tem que estar melhor do que está hoje”, comenta Gustavo Coutinho, 21 anos, artilheiro da Liga Nacional pelo Paulistano e craque da seleção. “Os jogos estão acontecendo num nível muito mais alto. Os jogos muito mais pensados, muito mais físicos, aumentado o nível do polo brasileiro.”

Os dois jovens têm a oportunidade que Felipe e tantos outros bons jogadores do polo aquático brasileiro não teve. Baseado em clubes de elite, a modalidade viu muitos talentos desaparecerem das piscinas quando a vida adulta batia à porta. “Tenho carteira assinada, 13º salário, plano de saúde, fundo de garantia”, gaba-se Grummy.

Em comum com Pietro, Felipe e Tony ele tem mais do que o talento no polo aquático. Assim como os craques, seu pai também jogou pela seleção. Mais do que isso: seu avô, João Gonçalves Filho, foi a sete Olimpíadas, cinco como atleta do polo e/ou da natação e duas como técnico de judô. “Desde que eu soube que a Olimpíada seria no Rio, eu vivo desse sonho”, conta o garoto, que ouviu diversas vezes sobre a emoção do avô de carregar a bandeira do Brasil na abertura da Olimpíada de 1968.

Esse laço que diversos jogadores tem com o passado não é coincidência. É reflexo do que o polo aquático chama de “esporte secreto”. “Só quem tem algum parente ou amigo que já jogou polo sabe que o esporte existe”, explica Grummy. “Nossa função aqui (no Brasil) é mudar isso”, diz Grummy.

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