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Falta estrutura para Arthur Zanetti?

Demétrio Vecchioli

23 de abril de 2013 | 02h03

Arthur Zanetti reclama do COB

Partindo do pressuposto que é verdade tudo que o COB afirma na resposta a Arthur Zanetti, me parece bastante sem propósito a reclamação do medalhista de ouro olímpico. Domingo, numa reportagem do Esporte Espetacular, ele trucou: ou recebe condições melhores para treinar no SERC/São Caetano, ou vai competir por outro país.

O primeiro ponto é cultural. Na ginástica, leva-se muito a sério a fidelidade ao treinador. Por isso Arthur Zanetti não abre mão de trabalhar com Marcos Goto em São Caetano. Em qualquer outra modalidade, Zanetti já teria acertado para competir por um clube com melhores condições. Não o fez. Escolheu continuar onde não há infraestrutura. Aí vem a pergunta: cabe ao COB/CBG equipar o clube?

Pra mim, a resposta é não. Já há um mecanismo para isso, que é a Lei de Incentivo ao Esporte. Se São Paulo, Corinthians ou Palmeiras conseguem autorização para utilizar incentivos fiscais para colher dezenas de milhares de reais e construir centro de treinamentos para suas categorias de base, por que o SERC não conseguiria muito menos do que isso? A possibilidade está aberta. O GNU, por exemplo tem três projetos aprovados nesse sentido.

Na ginástica artística, entretanto, um porém precisa ser levado em conta. A CBG não oferece um centro de treinamento para seus atletas. O antigo local, no Velódromo do Rio, foi desmontado, e ao que parece partiu dos atletas o desinteresse para que continuasse existindo em outro lugar, reunindo uma seleção permanente. Cada um quer treinar com seu técnico, num argumento que entendo e aceito.

Mas aí o COB afirma que “já vinha mantendo negociações com os principais clubes de ginástica do Brasil (SERC/São Caetano, Pinheiros, Minas Tênis Clube, AABB/SP, CEGIN e Grêmio Náutico União) para envio dos equipamentos que estavam sendo utilizados anteriormente no CT do Velódromo. Já estava previsto para esta semana o envio de 22 equipamentos de ginástica para o ginásio do SERC/São Caetano. Os equipamentos foram escolhidos pelo coordenador técnico da CBG e pelo treinador Marcos Goto, de acordo com as necessidades específicas do ginásio de São Caetano”.

Em outras palavras: aparentemente já havia um acerto para equipar o ginásio de São Caetano do Sul, ignorado por Zanetti (repito: considerando que o COB não mente). O COB ainda diz que está a caminho do ABC oito equipamentos de musculação “de última geração”, solicitados por Goto e por Zanetti.

O ginasta argumenta que esperava por melhores estruturas logo depois da Olimpíada. A burocracia, obviamente, impediria isso. Mas há também a reclamação de que toda essa estrutura deveria ter sido oferecida antes dos Jogos de Londres. Minha pergunta: mas ela não vinha sendo colocada à disposição de Zanetti no CT do Velódromo? Em síntese: faltou qualquer coisa para o ginasta na sua campanha pelo ouro olímpico? Dinheiro, equipamentos, viagens?

Outro ponto que deve ser discutido é qual é a prioridade de incentivo no esporte olímpico. Se há R$ 2 milhões disponíveis, é melhor investir para montar um super centro de treinamento para Zanetti ou criar cinco escolinhas para crianças em regiões metropolitanas onde a ginástica de alto rendimento inexiste? (Salvador, Recife e Brasília, por exemplo). E se a ginástica brasileira continuar progredindo e ganhar, por exemplo, três medalhas no próximo Mundial. O COB será cobrado para que monte estruturas caras em três clubes diferentes, para cada um dos ginastas de destaque? Não acho justo.

Zanetti também cobra melhores condições para seu técnico, Marcos Goto. O COB diz que ajuda a complementar o salário não só dele, mas também de nutricionista, fisioterapeuta e psicóloga. E ainda bancou a viagem desses dois últimos para Copas do Mundo. Goto estuda na Academia Brasileira de Treinadores que, dentro das limitações do esporte olímpico brasileiro, me parece ser uma das melhores alternativas possíveis.

Graças obviamente ao talento de Zanetti, ele tem os patrocínios de Sadia, Nike e Nissan (o COB colocou que havia sugerido o nome do ginasta para as três empresas. Depois, vendo que exagerou, tirou). Ainda recebe Bolsa Atleta. E tem competido no maior número possível de Copas do Mundo, sempre levando seu técnico. Ou seja: dinheiro, aparentemente, não é problema.

Ainda sobre o tema técnico, volto à questão cultural, mas lembro o exemplo de outras modalidades. No judô (exemplo máximo de sucesso), cada atleta tem seu treinador no clube. Mas a CBJ paga salário para uma treinadora (no feminino) e um treinador (no masculino) e para uma comissão técnica que vem ficando cada vez mais completa. Natação idem. Ainda que estejamos falando do técnico do campeão olímpico, não vejo qualquer motivo que legitime uma pressão do tipo: “ou contrata o meu técnico ou não compito mais”. Cabe à CBG e só a à CBG escolher qual o melhor técnico para assumir essa função.

Por fim, me incomoda demais esse senso comum de que deve vir do dinheiro público a fonte de financiamento do esporte olímpico. O governo tem que ter outras prioridades. E cabe ao mercado parar de dar esmola em troca de “patrocínio” e passar a investir de verdade no esporte, principalmente o de alto rendimento.

PS: Não levei em consideração argumentos como: “ninguém deu bola pra ginástica ou pro esporte olímpico até hoje, agora que é véspera de Olimpíada que vão olhar”. Sim, foi assim. Não tem o que fazer, não há como chorar o leite derramado. O ponto é propor soluções daqui pra frente.

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