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Lesão de Lais é uma derrota enorme para o esporte brasileiro

Demétrio Vecchioli

29 de janeiro de 2014 | 04h49

O esporte brasileiro sofreu uma derrota gigantesca nesta terça-feira. Um derrota para um inimigo oculto, imaginário. Uma derrota em que, do outro lado, não há um vencedor.

Lais não deveria estar esquiando em Salt Lake City, aos 24 anos. Ela queria virar DJ. Estudou para isso, depois de desistir da ginástica. Até que veio um telefonema a convidando para tentar uma vaga nos Jogos Olímpicos de Inverno.

Lais não deveria estar esquiando, repito. Não tinha nada a agregar ao esporte. Se participasse dos Jogos de Sochi, seria última colocada. Penúltima com sorte. Mas apareceria na TV, com uma história de superação. Quem sabe chorasse na frente das câmeras e rendesse umas matérias especiais.

Chegaria ao Jornal Nacional. Quem diria! O esporte de neve brasileiro no Jornal Nacional. Que sacada da CBDN (Confederação Brasileira de Desportos na Neve)! Com uma só cartada, chegaria ao horário nobre da TV.

Chegou mesmo. Chegou pela tragédia. Ainda se fosse por uma boa nova, valem as consequências? Vale o risco? O Brasil precisa de um 24.º lugar nos Jogos de Sochi? Qual o ganho de uma 23ª posição para o País? Qual a perda ao ver uma jovem talentosa, carismática, batalhadora, numa cadeira de rodas? Valeu a troca?

“Mas a Lais poderia ser um exemplo para os jovens ingressarem no esqui”, diz o ingênuo. E o Brasil precisa de esquiadores? Precisa nada. Precisa de esportistas. Se for um corredor de 100m rasos, vai poder viver disso. De esquiar, não.

Lais foi usada. E ela não precisava provar mais nada para ninguém. Dez anos antes (2003), havia ganhado, aos 14 anos, medalha de bronze por equipes nos Jogos Pan-Americanos de San Domingos. Era uma esperança da ginástica artística.

Foi nona colocada no individual geral em Atenas/2004, feito inédito para a ginástica brasileira, até que veio o Mundial de 2006. Laís avançou para a final do individual geral em sexto e ainda pegou finais no solo e no salto. Mas machucou o tendão. Leiam esta declaração para o blog GymBlogBrazil:

“Eu estava com 40% de ruptura já no tendão, que estava doendo muito e eu não sabia por que. Se eu continuasse, se eu fizesse a final do geral, eu podia romper tudo. Ia ser uma lesão muito feia, eu poderia finalizar minha carreira ali. Então eu escolhi não competir. Sempre coloco minha saúde em primeiro lugar”, disse ela.

O leitor, que não tem memória de elefante, acha que ela ficou fora da final? Nada. “Então os médicos me deram remédio, eu enfaixei, fiz fisioterapia, e deu uma aliviada. Aí eu consegui competir as finais de salto e solo. Depois da competição eu fiquei um tempo parada até melhorar essa lesão”. O resultado obtido por Lais? Pouco importa. Se importasse, lembraríamos. Mesmo assim, colocou sua carreira em risco.

Depois dos Jogos de Pequim/2008, foram três anos afastada do esporte. Voltou no fim de 2011, visando os Jogos de Londres. Foi uma série de lesões de companheiras de seleção que colocaram Lais na boca para ir à Olimpíada. Até que veio uma lesão na mão, já na capital inglesa, que a fez ser cortada.

Lais novamente parou. Ficou afastada do esporte, chegou à 12ª cirurgia, mas voltou, convidada pela CBDN. Fez uma seletiva da qual só participaram ela e Josi Santos e as duas foram escolhidas.

O acerto demorou. Denise, sua amiga e empresária, queria maior respaldo da CBDN com relação à parte física. Exigia uma fisioterapeuta, que acabou sendo Denise mesmo.

Quando aconteceu a lesão, Lais estava sozinha. Manjo nada de medicina, mas pelo jeito poderia ter mil médicos ao seu lado e as consequências seriam as mesmas.

Mas e se a história fosse outra? E se a recuperação dela dependesse desses profissionais de saúde? Teria valido à pena levar duas atletas para classificar uma, em detrimento a ter nos EUA uma equipe multidisciplinar?

Tomara Laís consiga levantar de uma cadeira de rodas. Se não levantar, olhe bem a foto dela. E pense nela cada vez que olhar um quadro de medalhas. Vale à pena?

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