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Menos musas, mais atletas

Demétrio Vecchioli

10 de julho de 2015 | 19h42

Ingrid Oliveira não precisava passar pela exposição ao qual foi submetida pela mídia brasileira nos últimos dias. É uma atleta de saltos ornamentais de resultados consistentes há pelo menos três anos. Tira fotos de maiô porque passa o dia de maiô. Treinando. Subindo 10 metros em uma escada desconfortável, pulando na água – com o risco de cair de costas, o que dói para chuchu, imagino -, saindo da piscina e subindo aqueles 10 metros de novo. E de novo. E de novo.

Aos 17, morou quase um ano na China. E lá os “de novo” se multiplicavam por dois, três. Não falava a língua local, morava num hostel, longe dos pais, quase sem comunicação com família e amigos, sem lazer, sem Facebook, sem poder estudar. Tudo para chegar a um Pan, a uma Olimpíada, e fazer bonito.

Bonita, aliás, ela é desde que conquistou os primeiros bons resultados internacionais, em 2013. Mas ninguém se importava. Assim como ninguém se importou quando Isaac Souza, companheiro de treinos dela, sofreu tantas quedas doloridas como a de Ingrid no Pan, obrigado a testar exercícios que não dominava, que chegou a largar o esporte. Pouco se importou quando ela perdeu seu local de treino, quando teve que mudar de cidade por causa disso.

O Brasil só se importou com Ingrid quando descobriu que ela tem um corpo bonito. Deu a ela um título de musa, que ela nunca pediu. Afinal, o Pan taí, começa daqui a pouco. Alguém há de ser musa. Sem medo, ela arriscou um salto que treinava há pouco tempo, errou feio. Tirou zero. Um zero que não fazia diferença – todo mundo iria à final de qualquer forma. Caiu de costas. Doeu. Na pele e internamente. Chorou como menina – e meninas não são musas.

Os mais leves comentários nas redes sociais dão conta de que ela “quis” mostrar a bunda e por isso “parou de treinar”. Nenhuma das duas coisas é verdade. É lógico que há atletas que querem ser “musa”. Tiram fotos “sensuais” e enviam à imprensa. Se autodenominam “musa”. Ingrid inicialmente ganhou os holofotes exatamente porque estava incomodada com os comentários sobre o seu corpo.

Quem criou a “musa” foi a imprensa. Fomos nós, jornalistas. E somos nós os responsáveis por cada palavra ofensiva que essa menina recebeu nas últimas horas. Somos nós o responsável pelo erro – porque fomos nós que treinamos poucos, quase nada, perto do tanto que, aos 19 anos, ela já treinou. A ela, o meu pedido de desculpas.

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