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Naturalizações ‘forçadas’ soam como trapaça por medalha olímpica

Demétrio Vecchioli

12 de maio de 2015 | 10h31

Não foi à toa que a imprensa britânica chamou de “plastic brits” os atletas naturalizados apenas para defender o país nos Jogos Olímpicos. Os “britânicos de plástico” são dariam o sangue por uma medalha olímpica, ainda muitos deles tenham ajudado a Grã-Bretanha no quadro de medalhas em Londres. Agora é o Brasil a repetir o expediente pouco nobre ao naturalizar um croata e um sérvio na “canetada”. Trapaça esportiva em troca de uma medalha olímpica.

Entenda: Governo abre exceção e Brasil naturaliza dois no polo aquático para Olimpíada

De cara, é preciso separar o joio do trigo. Lin Gui, do tênis de mesa, nasceu na China, mas cresceu no Brasil. O norte-americano Larry Bird, do basquete, morava no País há mais de quatro anos quando entrou com pedido de naturalização. Criou raízes aqui, sentiu-se brasileiro. Pediu para ser um de nós, foi aceito. Chegou, depois, à seleção de basquete, porque era o melhor armador nas quadras do País.

Slobodan Soro e Josip Vrlic são mercenários, no real sentido da palavra. Não à toa, só deram entrada no processo de naturalização depois de assinarem contrato com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). O dinheiro que deveria ser utilizado para desenvolver a modalidade no Brasil vai para dois atletas profissionais que vivem e moram na Sérvia.

Eles não moram no Rio, não falam português (ainda que ler e escrever português seja mandatório no processo de naturalização), não jogam por clubes brasileiros e sequer participam dos treinamentos da seleção. São seguidamente convocados e não se apresentam. Não praticam intercâmbio, não têm contatos com atletas mais jovens, não passam conhecimento.

A trapaça, entretanto, não acontece por debaixo dos panos. É à luz do dia. A CBDA desde 2013 fala com todas as letras: não temos tempo, tem que ser na canetada. O Comitê Olímpico do Brasil (COB) não se opõe e paga o salário do técnico croata Ratko Rudic, que teria condicionado seu trabalho à “naturalização” dos dois atletas. O governo faz pior e dá a assinatura final. Abre exceção no processo de naturalização sob o argumento de que ambos podem prestar “serviços relevantes”.

Em plena crise financeira, o Brasil come mortadela e arrota caviar. Age como se medalha olímpicas fossem compradas, não conquistadas. Como se os Jogos Olímpicos fossem uma competição de times, montados com atletas contratados, e não um reflexo do nível de desenvolvimento de uma modalidade em um determinado País. Quer mostrar ao mundo o que não é.

Tem vergonha de expor que, aqui, joga-se dois torneios femininos de polo aquático por ano. E que cada um dura cinco dias. Que uma atleta joga no máximo 10 partidas em uma temporada inteira. Se ela for do Flamengo ou do Pinheiros, em seis desses jogos, mal precisa se esforçar para conquistar uma vitória.

A CBDA também em nada ajuda. Seu diretor não tem a menor vergonha de mentir de pés juntos, jurando que os naturalizados moram no Brasil há quatro anos, ainda que seja público que eles chegaram em meados de 2013.

Trata a naturalização como um “troco” no mundo. Afinal, Tony Azevedo, ídolo do polo nos EUA, onde cresceu, não quis defender o Brasil, país que até outro dia só conhecia como turista. Porque Pietro Figlioli, que sequer fala português, mas é filho de pai brasileiro, não aceitou a oferta de jogar pelo Brasil e preferiu seguir na Itália, onde constituiu família.

Na cabeça da CBDA, se os dois atletas, nascidos no Rio, não aceitaram jogar pelo Brasil, então nada mais justo do que contratar dois atletas de fora para repor as “perdas”. O mais bizarro de tudo isso é que não há a menor ironia na última frase. A entidade pensa exatamente assim. E expõe isso acreditando que tem razão.