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No “País do Futebol”, boxeador ganhava mais que Dilma para ser amador

Demétrio Vecchioli

07 de janeiro de 2015 | 13h59

O esporte olímpico brasileiro foi surpreendido com a notícia – dada pelo Olimpílulas em primeira mão – de que o campeão mundial de boxe Everton Lopes assinou contrato profissional e, assim, não pode mais lutar nos Jogos do Rio/2016. O blog tentou contato com o lutador, mas não obteve resposta. Até agora, a única explicação de Everton foi dada ao GloboEsporte.com. Disse ele ao meu amigo Thierry Gozzer: “Faltou reconhecimento no Brasil. Aqui no Brasil, esporte é só o futebol. Eu vejo muitos patrocinadores em outros esportes e o boxe, que deu muitos resultados ultimamente, não tem”.

Vamos às verdades. O boxe tem patrocinador, e de peso. A Petrobrás começou a investir no boxe em 2011, antes mesmo de Everton se tornar campeão mundial naquele ano. Quando ganhou ouro na categoria até 64kg em Baku (Azerbaijão), o baiano já recebia um salário mensal da estatal. Só em 2015 a Petrobrás deve investir R$ 3,2 milhões na Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe). Não é pouco dinheiro.

Se a reclamação de Everton é a falta de patrocinadores pessoais, o governo também solucionou o problema. Agiu para que ele ingressasse na Marinha, instituiu o Bolsa Pódio para atletas com chances reais de medalha em 2016 (como era ele) e ainda repassa dinheiro para a CBBoxe, via Lei Piva, para que a confederação lhe pague um salário.

A conta é a seguinte: neste mês de janeiro, Everton receberia pouco mais de R$ 2,7 mil como soldo da Marinha, R$ 15 mil de Bolsa Pódio, R$ 6 mil da Petrobrás, R$ 3,2 mil da CBBoxe e R$ 2 mil do governo da Bahia.  Em síntese, os cofres públicos eram responsáveis, todo mês, por depositar R$ 28,9 mil na conta do boxeador que, vale lembrar, era “amador”.

“Um jogador de futebol ganha muito mais do que isso”, dirá o leitor. Ok, mas o salário do jogador de futebol não é pago com recursos públicos. Com quase R$ 29 mil mensais, Everton ganhava mais do que o salário bruto pago à presidente da República, Dilma Rousseff, no ano passado: R$ 26,7 mil.

O boxeador, por fim, vai para o profissionalismo em dívida com o País. Afinal, desde janeiro do ano passado, recebeu R$ 15 mil mensais (mais técnico, médico, fisioterapeuta, viagens, etc) do governo federal para que se preocupasse apenas em se preparar para os Jogos Olímpicos do Rio/2016. A verba só foi concedida depois de ele apresentar um “plano esportivo” indicando o que faria, dia após dia, até a Olimpíada. Recebeu R$ 180 mil para ir aos Jogos e não irá.

Numa rasa comparação com o fomento à ciência e tecnologia, quando um pesquisador recebe uma bolsa de fomento, ele precisa entregar a pesquisa conforme combinado, dentro do prazo. Se não o fizer, tem que devolver o dinheiro. O governo federal deveria cobrar o mesmo de Everton.

AINDA SOBRE VALORES – Para evitar a profissionalização de atletas amadores, a AIBA (Associação Internacional de Boxe Amador) criou uma liga que ela chama de semi-profissional, a APB. Everton se recusou a assinar com a entidade, por conta da cláusula de rescisão. Entre outubro e dezembro, poderia ter feito três lutas, cada uma delas recebendo uma bolsa mínima de US$ 3 mil – como campeão mundial, teria um cachê mais polpudo. Se chegasse à quarta luta, disputaria um prêmio de US$ 100 mil. 

Aos 26 anos, Everton poderia ter esperado para migrar para o profissionalismo. Segundo do ranking mundial, dependia só de mostrar o que sabe para ganhar uma medalha olímpica e assinar contrato logo depois dos Jogos Olímpicos. Teria sido mais correto se, ao se despedir do boxe amador, tivesse ao menos pedido desculpas.

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