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‘Tiger Woods’ de Parelheiros joga circuito profissional após doação de rival

Demétrio Vecchioli

12 de setembro de 2015 | 07h00

Quando pisou pela primeira vez em um campo de golfe, Rogério Bernardo queria apenas um trabalho que lhe desse condições de ajudar as oito bocas da casa dos pais. Onze anos depois, segue sendo dos 18 buracos que o paulistano tira seu sustento. De caddie (carregador do saco de tacos) ele virou jogador profissional, com credencial para toda a temporada do PGA Latino-América, espécie de terceira divisão do PGA Tour. As dificuldades para se sustentar em Parelheiros, distrito mais pobre de São Paulo, porém, seguem as mesmas. Não fosse a doação do amigo e rival Lucas Lee, o ‘Tiger Woods Brasileiro’ não estaria no Equador neste final de semana.

Ser profissional de golfe, afinal, só é uma boa ideia para quem confia muito no próprio taco – literalmente. O amadorismo não oferece premiação em dinheiro, mas dá a possibilidade de o golfista ter outras fontes de renda. Profissional, Rogério não pode trabalhar como caddie. Como não é educador físico, não pode lecionar o que aprendeu durante 11 anos de convívio com o golfe.

Em 2004, quando a fábrica de peças para moto, onde trabalhava, foi fechada, Rogério se viu com duas opções: ou passaria a trabalhar na colheita de batatas, ou acompanharia alguns amigos que ganhavam um dinheiro “fácil” no Guarapiranga Golf Club, ali perto de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo.

Às segundas-feiras, o campo era aberto para os meninos arriscarem as suas tacadas. Rogério logo se destacou e passou a poder treinar também às terças. Um sócio gravava as jogadas de Tiger Woods e levava e buscava as fitas para o garoto todos os domingos. Nos primeiros torneios entre caddies o apelido já estava colado: “Tiger Woods Brasileiro”. “Se você perguntar por Rogério Bernardo lá nos amadores, ninguém vai saber quem é”.

A primeira experiência no golfe profissional foi em 2008. “Eu estava jogando bem, pensei: ‘Chegou a hora, vamos botar os pratos a limpo. Vamos ver qual é que é'”. O patrocínio da Vivo durou dois anos e permitiu a Rogério disputar os torneios nacionais. “Quando o suporte acabou, passei necessidade em casa. Fiquei sem grana mesmo, do fim de 2011 até o meio de 2012”.

O mesmo ciclo voltaria à vida de Rogério outras duas vezes, com patrocínio vindo e voltando. Em 2013, ele chegou a ganhar cartão (direito a disputar os torneios) do PGA Latino-América, então recém-criado. Sem dinheiro para pagar as viagens, não pôde competir. “Passei necessidade de novo. Não tinha nada, nada, nada, foi um apuro”.

Em janeiro deste ano, Rogério ganhou um torneio no Peru e obteve novamente o cartão. Mas o patrocinador, o Aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), que havia permitido ao golfista voltar a jogar regularmente, cortou o apoio. “Não tinha dinheiro nem para academia, estava já gordinho. Comecei a fazer uns trabalhinhos em casa, fiz o quarto do meu filho. Agora estou perfeito fisicamente”, contou ele, que construiu uma casa no terreno do sogro, ainda em Parelheiros.

O dinheiro para jogar dois torneios veio de uma doação do amigo Lucas Lee, que joga o Web.Com Tour (circuito ao qual o Latino-América dá acesso), mas já está classificado para o PGA Tour do ano que vem.

“Ele me ajudou com uma quantia para jogar os dois primeiros torneios. Como o dólar aumentou, vou jogar no Equador, volto para o Brasil, disputo o Aberto do Arujá (SP, válido para o Pro-Tour brasileiro), o Aberto do Brasil (do Latino-América Tour) e usei o dinheiro para comprar a passagem para o Chile”, contou Rogério, que estima que gastará US$ 1,3 mil para jogar no Equador, mais do que ganhou em toda a temporada internacional do ano passado.

Não haveria como seguir no golfe se não fosse o apoio de Lucas. “Ele estava meio desesperado. Eu sei exatamente o que ele está passando porque o golfe é um esporte muito caro. A gente tem que pagar tudo antes de ir para o torneio. E mesmo indo, jogando bem e ganhando dinheiro, demora duas ou três semanas para chegar na conta. Tem que ter uma garantia. Não tenho capacidade de patrocinar 10 torneios, mas ajudei com dois”, explicou Lucas, melhor brasileiro do ranking mundial.

Os dois se conheceram em 2008. Lucas, que mora desde os 11 anos em Los Angeles para treinar golfe, estava em São Paulo e foi treinar em Guarapiranga. “Ele perguntou onde tinha torneio, eu disse que em Itupeva (SP). Ele falou que ia, mas eu não acreditei. E não é que ele foi. Paramos para comer na estrada, ele perguntou o que eu ia comer. Eu disse que ia comer um lance, não tinha dinheiro, né? Ele disse que ia comer um marmitex. Pensei: duvido que ele vá comer um marmitex. Entramos, catamos um marmitex, comemos lá fora. Ele disse: ‘Tô com você, vou comer onde você comer’. Nunca vou esquecer aquela cena”. Lucas também não esqueceu.

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