Vice-campeão mundial de judô, Leandro Cunha terá que bancar do bolso a campanha olímpica
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Vice-campeão mundial de judô, Leandro Cunha terá que bancar do bolso a campanha olímpica

Demétrio Vecchioli

07 de novembro de 2014 | 07h33

 

Yves Herman/Reuters

Duas vezes vice-campeão mundial de judô (2010 e 2011), Leandro Cunha vai ter que bancar do bolso a sua campanha olímpica. O atual campeão dos Jogos Pan-Americanos decidiu mudar de categoria no ano passado, saindo do meio-leve (até 66kg) para o leve (até 73kg), ficou fora da seleção brasileira durante todo o ano de 2014 por uma falha de inscrição e foi surpreendido com a informação de que sequer foi convidado para lutar a última seletiva olímpica brasileira, em dezembro, na Urca, no Rio.

O Brasil tem uma vaga por categoria na Olimpíada e o judoca a utilizá-la será escolhido pelo ranking mundial. Para pontuar, é preciso competir. Para competir, é necessário estar na seleção. Para estar na seleção, tem que passar pela seletiva.

“É uma coisa política. O critério tem que ser para todos. Pelo que eu já conquistei pela seleção, eu acho que tinha que estar lá”, diz Leandro, chamado por todos no judô de Coxinha – nada a ver com o novo significado de “Coxinha”, por favor. “Eles (a Confederação Brasileira de Judô) não explicam muito. Eles liberam a lista. Os critérios que eles usam não são muito explícitos”, reclama o judoca de 34 anos.

Os critérios da CBJ para a seleção brasileira para todo o ciclo olímpico valem desde 2012. Os atletas que estão entre os 22 melhores do ranking mundial no masculino e entre as 14 primeiras do mundo no feminino têm lugar cativo na seleção, assim como os medalhistas olímpicos.

Quem não se mantiver na seleção de um ano para o outro, os campeões brasileiros adulto, sub-23 e sub-21 e do Troféu Brasil têm vaga garantida na seletiva, completada com judocas indicados pela comissão técnica. Atleta olímpico do Brasil em Londres/2012, Leandro Cunha não se encaixou em nenhuma das opções. Não ganhou nem mesmo convite por méritos técnicos. Assim, se a CBJ mantiver seus critérios, o Coxinha está fora da seleção até o Rio/2016 – a seletiva deste ano é a última até a Olimpíada. O Brasil tem vagas em todas as categorias e o judoca a utilizá-la será escolhido com base no ranking mundial.

Desde 2012, a cada ano, três atletas compõem a seleção em cada categoria (em alguns casos, abre-se exceção para mais ou menos, de acordo com o nível técnico dos concorrentes). São esses cerca de 45 judocas que recebem apoio financeiro da CBJ e ficam aptos a participar dos principais eventos do Circuito Mundial. Afinal, é a CBJ que inscreve os atletas nesses torneios – só os Opens, que distribuem poucos pontos, são abertos a qualquer judoca.

Leandro Cunha saiu da seleção porque despencou no ranking mundial em 2013, ano em que somou apenas 46 pontos e foi ao pódio uma única vez. No fim da temporada, por direito, foi considerado apto a disputar a seletiva da seleção, ainda que tivesse optado por mudar de categoria. O problema foi que, após 12 temporadas no Pinheiros, ele voltou para São José dos Campos. A transferência não foi concluída a tempo e, sem clube, com problemas de inscrição, ele não pôde lutar a seletiva e ficou fora da seleção.

Mesmo assim, a CBJ permitiu que o Coxinha participasse de dois Grand Prix (evento de terceiro nível no Circuito, atrás de Mundial/Olimpíada/Masters e dos Grand Slam). Leandro lutou em Zagreb (Croácia) e Havana (Cuba), custeando as viagens do bolso. Nas duas competições, ficou em sétimo, perdendo nas quartas de final e na primeira luta da repescagem – alega que estava se adaptando ao peso. Não convenceu a CBJ a voltar a convocá-lo.

A situação não desanima o Coxinha: “Vou ter que pagar para eles liberem para eu ir pra uma das etapas. É subir no pódio. Em termos de resultado eu tenho condições”, acredita o judoca, que completa: “Eu só quero que eles abram espaços. Eles têm que dar essa chance para mim. Eles não fecharam porta e espero que isso não aconteça.”

Ele conta que mudou de peso por conta da nova regra, que exige a pesagem na véspera da luta e que obriga dois judocas por categoria a irem à balança, por sorteio, também no dia de lutar, podendo passar apenas 5% do limite. Com isso, ficou difícil para Leandro, que costumava pesar até 71kg, cinco quilos a mais do que a categoria. Na até 73kg, ele fica confortável.

A decisão coincidiu também com um momento em que Charles Chibana se confirmava como grande promessa do judô brasileiro – hoje ele lidera o ranking mundial na categoria até 66kg. Enquanto isso, entre os leves, o Brasil não tem nenhum judoca de destaque. Os melhores no ranking são Alex Pombo (17.º) e Marcelo Contini (22.º) – os dois foram dispensados da seletiva. Bruno Mendonça, que disputou o Mundial do ano passado, subiu de categoria e está tentando a sorte na até 81kg.

Como não está entre os 20 melhores do ranking mundial, Leandro não recebe o Bolsa Pódio, do governo federal. Ele, porém, segue contemplado com a faixa mais alta do Bolsa Atleta (R$ 3,1 mil), por ter ido aos Jogos de Londres. O Coxinha é atleta da equipe da Prefeitura de São José dos Campos (SP) e 3º sargento do Exército Brasileiro.  Ainda assim, procura patrocínios para bancar as possíveis viagens na campanha olímpica.

Eduardo Katsuhiro Barbosa, Fernando Martins, Gabriel Mendes, Igor Pereira, João Pedro Macedo, Lincoln Neves e Luanh Saboya vão disputar a seletiva na categoria de Leandro Cunha. Contra Fernando (Minas), Gabriel (Flamengo), Igor (Reação) e João Pedro (Sogipa) há a possibilidade de confrontos no Grand Prix Interclubes, que acontece neste fim de semana, em Belo Horizonte.

 

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