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A seleção de Dunga não encanta

Luiz Prosperi

13 de novembro de 2014 | 19h10

Da goleada do Brasil para cima da Turquia, com extrema facilidade, se pode concluir que a seleção de Dunga é moldada para correr. Uma alucinada correria bem ao gosto de Neymar. A bola não circula no meio. É esticada da defesa ao ataque, sem a menor cerimônia. Aquele futebol envolvente, de troca de passes, dribles, jogadas de efeito, todas com a patente da camisa amarela, é uma miragem.

Dunga não é, nunca foi, um adepto da fantasia com eficiência como, por exemplo, era Telê Santana. Seu jogo é pragmático. O time se mata pelo resultado na ilusão de que estatísticas robustas, com uma vitória atrás da outra, são definitivas. Quanto mais números favoráveis, melhor. Acontece que o futebol na maioria das vezes não se vale das estatísticas. Basta um resultado ruim, digamos, como aquele 7 a 1 da Alemanha, e os números são pulverizados.

De nada adianta Dunga estufar o peito, franzir a testa, cara de impoluto, se vangloriando com os resultados positivos nos amistosos. Nem levamos em conta a qualidade dos adversários – no caso da Turquia, uma temeridade. Aumentar a coleção de vitórias é saudável, mas tem o peso de uma pluma.

O que chama a atenção é que perdemos definitivamente a identidade do futebol brasileiro. Jogamos com a maioria joga. Nossos jogadores são formados com os ideais do futebol europeu. Aquela irreverência das ruas, das praias e chão batido nas íngremes favelas não existe mais. Formamos um time com a cores do Brasil e alma da Europa.

Seria muito pedir para Dunga rever esse conceito. Desde o tempo em que ele jogava bola, seu estilo era muito mais parecido aos dos volantes europeus. Não tinha nada dos craques brasileiros. Ele é disciplinado, tático do retrocesso. Seu time não encanta nem o mais fanático, se é que eles existem, torcedor da seleção.

Por isso, a expressiva vitória para cima da inocente Turquia não cabe numa ilusão. Os turcos, do seu lado, aplaudiram o Brasil e vaiaram sua seleção no amistoso desta quarta-feira. Eles não estão acostumados à qualidade de um futebol bem jogado. Bateram palmas à vontade. E os brasileiros? Difícil encontrar um que tenha espiado o jogo pela televisão.

A seleção de Dunga ainda é uma incógnita, apesar das vitórias. E de Neymar, é claro.

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